INTEROPERABILIDADE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: SOLUÇÕES EXISTENTES, DESAFIOS DE IMPLEMENTAÇÃO E FUNDAMENTOS PARA UM FRAMEWORK APLICADO
Interoperabilidade. Sistemas de Informação em Saúde. Atenção Primária à Saúde. Saúde Digital. Ciência da Implementação
A transformação digital dos sistemas de saúde ampliou a disponibilidade de registros eletrônicos e de soluções voltadas ao intercâmbio de informações, mas a existência de tecnologias não garante, por si só, a interoperabilidade efetiva entre sistemas. Na Atenção Primária à Saúde (APS), esse desafio assume especial relevância em razão da longitudinalidade do cuidado, da multiplicidade de profissionais e serviços envolvidos e da necessidade de articulação com diferentes níveis da rede assistencial. No Sistema Único de Saúde (SUS), a implementação de soluções interoperáveis ocorre em contexto marcado por heterogeneidade regional, econômica, organizacional e tecnológica. Este estudo tem como objetivo desenvolver fundamentos conceituais para um framework multidimensional aplicado à análise e à implementação de soluções de interoperabilidade de sistemas de informação em saúde na APS. Foi conduzida uma revisão de escopo fundamentada nos referenciais de Arksey e O’Malley, Levac e colaboradores e Colquhoun e colaboradores, nas recomendações do Joanna Briggs Institute e no PRISMA-ScR. A questão de pesquisa foi estruturada pelo mnemônico PCC (População, Conceito e Contexto). Foram incluídos estudos publicados em inglês ou português nos dez anos anteriores à busca final que descrevessem soluções de interoperabilidade implementadas ou avaliadas em contextos de APS e apresentassem informações sobre barreiras, facilitadores, adaptações ou estratégias de implementação. A busca identificou 1.813 registros, dos quais 53 estudos, provenientes de 22 países e cinco continentes, atenderam aos critérios de elegibilidade. Foram identificados oito grupos de soluções de interoperabilidade, abrangendo desde mecanismos locais de integração e intercâmbio de informações até plataformas regionais e nacionais. Os desafios de implementação mostraram-se multidimensionais e envolveram fatores tecnológicos, organizacionais, institucionais e contextuais, com destaque para integração aos fluxos de trabalho, capacidade da força de trabalho, liderança, governança, financiamento e adaptação às condições locais. Embora categorias semelhantes de barreiras tenham sido observadas em diferentes contextos, seus determinantes variaram conforme a disponibilidade de recursos e a organização dos sistemas de saúde. Os achados subsidiaram a estrutura preliminar de um framework multidimensional organizado nas dimensões tecnológica, organizacional, institucional e contextual. Espera-se que esse produto contribua para apoiar decisões de implementação de soluções de interoperabilidade em contextos heterogêneos de APS, especialmente no âmbito do SUS.