A RFB Editora acaba de lançar o livro "O Sebastianismo em Trânsito Atlântico: o republicanismo e a depreciação do mito sebástico (Portugal e Brasil, 1889-1897)". A obra é de autoria de Joel Carlos de Souza Andrade, historiador, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador do Programa de Pós-Graduação em História do Campus Caicó (PPGHC).
O livro é fruto da tese de doutoramento desenvolvida pelo autor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sob orientação do renomado historiador Fernando Catroga. A pesquisa investiga como o sebastianismo, tradicionalmente visto como uma crença mística na volta do rei D. Sebastião, foi ressignificado e utilizado politicamente por intelectuais republicanos nos dois lados do Atlântico no final do século XIX.
Ao contrário de abordagens que focam no aspecto folclórico ou religioso, a obra de Joel Andrade revela o sebastianismo como uma categoria política negativa. No contexto da recém-proclamada República brasileira (1889), o termo foi "diabolizado" por grupos radicais, como os jacobinos, que o utilizavam para estigmatizar monarquistas e opositores como símbolos de um "atraso" que precisava ser superado pela marcha do progresso.
Nesse processo de desconstrução, a figura do "Rei Desejado" foi patologizada por discursos cientificistas, positivistas e da antropologia criminal da época, que buscavam transformar o mito em um objeto caricatural de degenerescência. Para sustentar essa análise, o autor realiza um escrutínio minucioso da imprensa da época, examinando jornais como A Voz Pública, em Portugal, e os periódicos brasileiros A Bomba, O Republicano e O Jacobino. O estudo também destaca a atuação de "mosqueteiros intelectuais" como Carrilho Videira e José Soares da Cunha e Costa, que mantiveram o intercâmbio de ideias antimonárquicas entre as duas nações. Por fim, a obra demonstra como essas tensões culminaram em episódios dramáticos, como o conflito de Canudos, onde a resistência sertaneja foi lida pelas elites urbanas como o último reduto de um "fantasma" restauracionista que precisava ser exterminado para a consolidação definitiva do regime republicano.