AS IMAGENS DO FEMININO EM O MURO DE PEDRAS, DE ELISA LISPECTOR: UMA ANÁLISE SOB A ÓTICA DA IMAGOLOGIA DE GÊNERO
Elisa Lispector; imagologia literária; fluxo de consciência; literatura brasileira contemporânea; estudos de gênero.
A literatura intimista brasileira produzida por mulheres na década de 1960 constitui um espaço estético fundamental de manifestação da subjetividade e de resistência aos discursos hegemônicos de gênero. O propósito desta dissertação é compreender como a narrativa de O muro de pedras (1963), de Elisa Lispector, reflete a influência do meio social na constituição da interioridade e da identidade da protagonista Marta por meio da representação estética de sua consciência. Busca-se demonstrar que o fluxo de consciência funciona como um locus enunciativo privilegiado, no qual os imagotipos femininos são mobilizados e tensionados antes de serem traduzidos pela linguagem patriarcal. Para alcançar esse objetivo, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa e bibliográfico-interpretativa, pautada na leitura de excertos do romance organizados em três dimensões da condição feminina: 1) desejos, vontades e busca por autonomia; 2) maternidade e sua desmistificação; e 3) casamento, relacionamentos e espaço doméstico. A fundamentação teórico-metodológica articula a imagologia literária de Daniel-Henri Pageaux (1995; 2004; 2011), Joep Leerssen (2007; 2016), Maria João Simões (2011; 2020) e Celeste Ribeiro de Sousa (2004; 2009; 2011) à imagologia de gênero de Ginette Verstraete (2007) e à teoria da performatividade e citacionalidade de Judith Butler (1997; 2020). O estudo integra ainda o nível hermenêutico sustentado na crítica cultural e feminista de Marilena Chaui (2000), Rita Terezinha Schmidt (2000; 2017), Lúcia Helena (1989), Mary Louise Pratt (1994; 1998), Maria Ângela D'Incao (2001), Lúcia Osana Zolin (2009), além do nível formal embasado na semanálise de Julia Kristeva (1980; 1984), nos estudos do fluxo de consciência de Robert Humphrey (1976), Dorrit Cohn (1978), do romance moderno de Anatol Rosenfeld (1976; 1993) e da narratologia de Gérard Genette (1995). Os resultados evidenciam que a assimetria conjugal, o confinamento doméstico e as pressões da maternidade compulsória não decorrem de fraquezas individuais, mas retratam a absorção da subjetividade feminina pelas estruturas patriarcais do Brasil de 1963. Constata-se que as oscilações do monólogo interior e as fraturas sintáticas revelam a hesitação e o sofrimento da protagonista diante das normas impostas. Conclui-se que a poética do fluxo de consciência dá materialidade estética ao recalcado da subjetividade feminina, atuando como uma contra-narração que desafia a estabilidade dos imagotipos tradicionais de gênero no horizonte sociocultural pré-1964.