A representação da masculinidade hegemônica e a distorção da identidade homossexual em Querelle de Brest, de Jean Genet
Masculinidade hegemônica; Masculinidade tóxica; Homossexualidade; Jean Genet; Querelle de Brest.
Os debates envolvendo as masculinidades heterossexuais se fazem presentes no meio acadêmico há bastante tempo, afinal de contas, são os homens heterossexuais que costumam ditar as regras de como todas as instituições sociais funcionam. Entretanto, os debates envolvendo as masculinidades homossexuais ainda não são tão recorrentes. Partindo desse ponto, ao longo dos tempos, os construtos sociais se encarregaram de criar um conceito que serviria de base e determinaria como os homens heterossexuais deveriam ser e agir, sob pena de exclusão social e invalidação de sua masculinidade e virilidade. Surge assim o conceito de Masculinidade Hegemônica, popularmente conhecida como masculinidade tóxica, que visa reforçar comportamentos tidos como masculinos e viris, como a violência física, social e psicológica, a ausência de sentimentos e demais comportamentos que aproximam esses homens do universo feminino que tem de ser rejeitado a todo custo. Porém, essa teoria exclui os homens gays de sua influência por não disputarem o desejo e atenção das mulheres, que são as que validam a masculinidade e virilidade desses homens heterossexuais. Essa exclusão é prejudicial em vários níveis, pois, impõe que para ser homem tem que ser masculino, viril e hétero. Logo, ao ser um homem gay, já supõe que será efeminado e, portanto, excluindo também a existência de homens gays masculinos. Além disso, a imagem da homossexualidade masculina é reforçada negativamente por estar associada a algo nocivo a essa ideologia, a saber, a feminilidade. São assim endossados os comportamentos homofóbicos e misóginos nesses homens gays que não conseguem aceitar a sua homossexualide. Dessa forma, para empreender esse debate, analisamos fosse possível, analisamos como esses comportamentos hegemônicos estão representados nos personagens masculinos no romance Querelle de Brest (1986[1947]), de Jean Genet, assim como o papel fundamental que a literatura tem em denunciar essas questões tão pertinentes à nossa sociedade. Abordaremos o percurso literário de Jean Genet, bem como o tratamento peculiar que esse autor atribui não só à homossexualidade mas também a outros aspectos da marginalidade que, em seu caso, se confessa tanto em sua obra como em sua vida. Trataremos, a partir de seus personagens, as manifestações da masculinidade hegemônica, uma vez que, nesse romance, os homens são todos representados com altos traços de masculinidade e virilidade, mas sempre buscam pelos prazeres sexuais entre outros homens e, ainda assim, não conseguem se ver como homens gays. Isso nos permitirá vislumbrar a toxicidade da masculinidade hegemônica, mesmo em um ambiente quase exclusivamente homossexual, no qual a única mulher que recebe uma certa relevância é tratada como “moeda de troca”. Por fim, para que possamos analisar como esses personagens se desenvolvem e o contexto em que se encontram ao longo da narrativa e a sua correlação com a hegemonia masculina, recorremos aos seguintes teóricos: R. W. Connell (2005), Connell e J. W. Messerschmidt (2013); B. W. Sculos (2017); Mike Donaldson (1993), Michel Foucault (1984, 1988), Sigmund Freud (2016), Márcio Venício Barbosa (1998), Hélio Dias Furtado (2018, 2021), Judith Butler (2019), João Silvério Trevisan (2021), Jean-Paul Sartre (2002), Edmund White (2003) e demais estudiosos que se mostraram pertinentes para a melhor redação desta pesquisa.