FUSÃO ENTRE HUMANO E MÁQUINA: UMA INVESTIGAÇÃO DOS CONCEITOS DE IA NO DISCURSO ACADÊMICO À LUZ DA LINGUÍSTICA COGNITIVA
Linguística Cognitiva; Domínio; Metáfora Conceptual; Integração Conceptual; Inteligência Artificial.
Embora a Inteligência Artificial (IA) seja amplamente estudada do ponto de vista técnico e aplicado, ainda há uma compreensão limitada sobre como o discurso científico constrói e organiza os sentidos atribuídos à IA. Essa lacuna teórico-epistemológica impede uma compreensão aprofundada dos esquemas cognitivos que sustentam a produção de conhecimento em IA, especialmente no contexto dos modelos generativos contemporâneos, podendo, assim, resultar em equívocos sobre seu real funcionamento. Desse modo, a presente pesquisa tem como objetivo geral caracterizar os conceitos que compõem o domínio da Inteligência Artificial (IA) a partir dos pressupostos teóricos da Linguística Cognitiva, com foco na forma como esses conceitos são modelados cognitivamente no discurso acadêmico da área. Essa caracterização permite revelar os mecanismos simbólicos e linguísticos que estruturam a compreensão da IA nos discursos acadêmicos, a fim de preencher a lacuna teórico-epistemológica. Para investigar essa lacuna, foi conduzida uma pesquisa qualitativa de caráter descritivo, com foco na caracterização dos conceitos de Inteligência Artificial (IA) a partir da Linguística Cognitiva. O corpus da pesquisa consistiu em 9 artigos científicos selecionados da base Web of Science, publicados entre 2020 e 2024, que abordam modelos generativos de IA. A análise concentrou-se nas pistas verbais presentes nos textos, utilizando técnicas de leitura especializadas e ferramentas de análise textual, como o Voyant Tools, para identificar padrões linguísticos e cognitivos na representação da IA. As variáveis investigadas incluíram domínios conceptuais (Lakoff, 1997; Fauconnier, 1984; 1987), a partir dos quais foram identificadas metáforas (Lakoff; Johnson, 1980) e integrações conceptuais (Fauconnier; Turner, 2002) subjacentes aos conceitos encontrados, tomando os dados linguísticos como ponto de partida para a emergência desses mapeamentos cognitivos. A análise revelou a predominância do domínio conceptual MÁQUINA nos discursos dos especialistas, com termos recorrentes como machine, model, system, data e network, associados ao funcionamento técnico da IA. Também foram identificadas projeções seletivas do domínio HUMANO, evidenciadas em termos como learn, train, understand, performance e decision, que sugerem aproximações conceptuais com a cognição humana. Foram mapeadas três metáforas principais —MENTE COMO MÁQUINA, IA COMO SER HUMANO e IA COMO JUIZ—, além de integrações conceptuais incompletas que combinam domínios técnicos e humanos, sem fusão plena entre eles. A pesquisa caracterizou, com base na Linguística Cognitiva, que os especialistas da área modelam os conceitos de IA por meio de metáforas e integrações conceptuais seletivas, projetando atributos humanos sobre sistemas técnicos de forma parcial e estruturada. Esses achados respondem à pergunta de pesquisa ao evidenciar que a construção de sentido sobre a IA, no discurso acadêmico, é marcada por esquemas híbridos e tensões conceptuais entre os domínios MÁQUINA e HUMANO. Vale salientar que essa contrariedade também modela nosso entendimento sobre a IA (Reddy, 1979), podendo resultar na superestimação desses sistemas diante da falta de transparência no discurso.