REMINISCÊNCIAS DE UMA CEARÁ-MIRIM QUE AINDA ECOA: A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO EM OITEIRO (1958), DE MAGDALENA ANTUNES
Oiteiro; Magdalena Antunes; Literatura norte-rio-grandense; Ceará-Mirim; Topoanálise.
Oiteiro: Memórias de uma sinhá-moça (1958) traz à tona as reminiscências da juventude de Magdalena Antunes em Ceará-Mirim, município do Rio Grande do Norte. Transitando entre os espaços urbano e rural da cidade, a memorialista lança luz à cena do Brasil oitocentista, em um contexto marcado pela presença da indústria açucareira no Nordeste. A presente pesquisa tem por objetivo analisar a representação de Ceará-Mirim em Oiteiro, enfatizando a esfera espacial na obra a partir da perspectiva da Topoanálise, teoria da espacialidade proposta por Borges Filho (2007). Para compor o corpus desta investigação de natureza qualitativa e bibliográfica, foram selecionados os sítios icônicos do município os quais aparecem com expressividade na narrativa: o Solar Antunes, a Igreja Matriz, o Mercado Público e o Engenho Oiteiro. O aporte teórico desta pesquisa leva em consideração as contribuições de Halbwachs (1990) e Bachelard (1978), que discutem, respectivamente, a dimensão social e íntima em torno da espacialidade. Concebendo que é por meio da rememoração que os cenários em Oiteiro são reconstituídos, a investigação também se vale do diálogo com Halbwachs (1990), Pollak (1990) e Sarlo (2007), cujas reflexões apontam para a memória enquanto dispositivo social. Com relação aos resultados obtidos a partir da análise, evidenciou-se que Magdalena evoca a memória dos espaços citados de forma articulada às suas lembranças pessoais, construindo uma imagem idealizada desses sítios, bem como da própria cidade. Sob uma perspectiva saudosista, a sinhá-moça apresenta uma visão romântica da antiga Ceará-Mirim, que, alinhada ao imaginário da elite, revela o intuito da narradora-protagonista em congelar no tempo um passado que foi venturoso apenas para a aristocracia açucareira.