Entre o riso e a resistência: uma análise do gênero meme como prática discursiva na cultura do cancelamento
cultura do cancelamento. humor. poder. análise do discurso. memes
A pesquisa contempla uma perspectiva alternativa acerca da cultura do cancelamento, compreendendo esse movimento como uma prática discursiva própria da sociedade em rede, na qual sujeitos e coletivos, sobretudo aqueles historicamente marginalizados, mobilizam a visibilidade digital para contestar discursos hegemônicos e redistribuir capitais simbólicos. Seguindo esse viés, o cancelamento não se reduz a uma punição individual, mas se configura como um movimento de resistência, insurgência simbólica e reconfiguração das relações de poder no espaço público. Nesse contexto, os memes constituem um gênero discursivo multimodal que articula humor e crítica, tornando-se objeto privilegiado para compreender como o riso pode operar como resistência. Partindo dessa premissa, busca-se compreender de que modo a circulação desses memes evidencia disputas de poder, resistência simbólica e reconfigurações de legitimidade no espaço digital. Para tanto, a pesquisa lança mão de conceitos e teorias embasadas na Análise do Discurso de linha francesa, em diálogo com autores como Eni Orlandi, Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Marie-Anne Paveau, Linda Hutcheon, Sírio Possenti e Henri Bergson. Com base nesse aporte, a análise, de natureza qualitativa e interpretativista, concentra-se em um corpus multimodal composto por dez memes produzidos entre 2016 e 2020 e coletados no Twitter — atual X. Argumenta-se que, no ambiente tecnodiscursivo da sociedade em rede, os memes operam mobilizando o humor como estratégia discursiva de crítica e resistência. Evidencia-se, ainda, que o cancelamento não se constitui como ato individual, mas como efeito de uma rede de micropoderes discursivos, que atua de forma simbólica na erosão dos capitais social, simbólico e econômico do sujeito cancelado. Conclui-se, assim, que o meme, no contexto da cultura do cancelamento, não pode ser reduzido a um elemento lúdico, mas deve ser compreendido como prática discursiva que contribui para a reorganização das relações de poder e das disputas de sentido na cultura digital.