AUTA DE SOUZA PARA ALÉM DO REGIONAL: A CIRCULAÇÃO DA POETA POTIGUAR NA IMPRENSA NACIONAL
DE 1897 A 1930 E AS REVERBERAÇÕES SÍMBOLO-REGIONAIS E MODERNISTAS DE SUA POESIA
Auta de Souza; Imprensa Periódica; Literatura; Memória Cultural.
RESUMO
Auta de Souza tem ganhado evidência nos últimos tempos e voltado à cena das discussões literárias. Neste contexto, o objetivo principal desta tese é apresentar um reposicionamento de Auta de Souza no cenário da literatura nacional, a partir da análise da circulação de noticias biográficas e de textos poéticos da autora potiguar na imprensa brasileira dos séculos XIX e XX (1897 a 1930); o estudo considera a atuação de sistemas de patronagem e de auto-projeção que influenciaram a consolidação da presença da autora nos periódicos nacionais e no imaginário cultural, evidenciando como ecos símbolo-regionais e modernistas refletem em sua poesia. O referencial teórico que fundamenta esta pesquisa articula diferentes eixos de análise: no âmbito da história da literatura e das tendências literárias, são mobilizadas as contribuições de Candido (2000), Even-Zohar (1990), Chiappini (1995 e 2013) e Pelinser e Alves (2020); quanto ao comparativismo literário, o estudo se apoia nas reflexões de Carvalhal (2006); as discussões sobre imprensa periódica e feminina no Brasil, bem como sobre as dinâmicas dos movimentos da literatura produzida por mulheres, encontram respaldo em Casanova (2002), Duarte (2016), Martins (2008) e Nitrini (2000); no campo dos estudos culturais, as teorias de Bourdieu (2002), Hall (2003) e Chartier (2002) são fundamentais para a compreensão das mediações simbólicas e das relações de poder nas representações sociais implicadas no fazer literário; os aportes biográficos de Figueiredo (2012) e Cascudo (1961) sustentam a análise das trajetórias pessoais e intelectuais que perpassam o corpus investigado. A pesquisa feita na plataforma da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional resultou na catalogação de 352 ocorrências com o nome de Auta de Souza, sendo que desse total 96 dizem respeito à publicação de poemas; o restante das ocorrências correspondem a matérias (66) ou mênções à poeta (166), além de anúncios de seu livro (06) e da primeira biografia feita sobre ela (18), de autoria de Jackson de Figueiredo. A poesia de Auta de Souza que circulou na imprensa no período de 1897 a 1930, além do profundo lirismo e das marcas historicamente discutidas sobre espiritualidade, introspecção e experiência do sofrimento, revela tensões entre resignação e resistência, as forças terrenas e o sagrado; a poeta reivindica sutilmente um lugar de voz e de expressão da subjetividade feminina com a propriedade de quem reconhece o silenciamento imposto à palavra poética feita por mulheres, trata-se de uma escrita que reflete os valores de sua época e antecipa um gesto moderno de interiorização e autonomia estética, capaz de dialogar com a tradição romântico-simbolista e uma sensibilidade moderna em formação. As composições mais recorrentes da poeta potiguar nos periódicos enfatizam a dor, a efemeridade da vida, a morte, mas também falam de esperança, vida, fé e revolução, funcionando como uma espécie de mediação entre o humano e o divino, transformando o eu-lírico em um instrumento de luta e de propagação dos ideais femininos. Nesse sentido, reposicionar a poeta potiguar no campo literário nacional implica não apenas ressignificar sua produção poética e ampliar visões esteriotipadas, para além de leituras cristalizadas em torno da religiosidade e do sentimentalismo presentes em sua obra, também consiste em afirmar a tríade literatura, memória e identidade cultural como eixos constitutivos da coletividade e a importância da imprensa periódica na construção da história literária do Brasil.