Infâncias ao Vento: Neuropsicologia e Exposição ao Ruído Ambiental Associado a Empreendimentos Eólicos em Comunidade Quilombola do Rio Grande do Norte
neuropsicologia histórico-cultural; desenvolvimento infantil; ruído ambiental; energia eólica; funções executivas; comunidades quilombolas.
A expansão da energia eólica no Nordeste brasileiro tem produzido transformações socioambientais em territórios rurais e tradicionais, tornando relevante investigar suas possíveis relações com as condições de desenvolvimento infantil. Esta dissertação analisou a relação entre a exposição ao ruído ambiental associado a empreendimentos eólicos e o desempenho atencional e executivo de crianças residentes em uma comunidade quilombola do Rio Grande do Norte. Fundamentado na Neuropsicologia Histórico-Cultural, realizou-se um estudo quantitativo, transversal e comparativo com 27 crianças, entre 7 e 9 anos, distribuídas em grupos de maior (n = 16) e menor (n = 11) exposição sonora. Foram avaliadas atenção concentrada, dividida e alternada, memória operacional, controle inibitório e flexibilidade cognitiva por meio de instrumentos neuropsicológicos padronizados. Não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nas medidas investigadas. Entretanto, observaram-se diferenças descritivas de magnitudes distintas, com maior tamanho de efeito no subteste Dígitos, seguido por atenção geral e atenção concentrada. Os resultados não sustentam um padrão de rebaixamento cognitivo generalizado associado à maior exposição sonora, tampouco permitem concluir pela inexistência de relações específicas, considerando o tamanho amostral e o delineamento transversal. Os achados reforçam a necessidade de compreender o desenvolvimento neuropsicológico em articulação com as condições concretas, históricas e socioterritoriais nas quais as crianças vivem, evitando interpretações lineares ou deterministas das relações entre ambiente e cognição. O estudo amplia a produção de evidências sobre uma população e um contexto ainda pouco representados na literatura e aponta para a necessidade de investigações longitudinais, com amostras ampliadas e medidas mais abrangentes das condições de exposição.