ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO EM LITORAIS MANICOLONIAIS: UMA CLÍNICA DA EXTIMIDADE
Acompanhamento Terapêutico; Psicanálise; Crise; Colonialidade; Território.
Esta pesquisa investiga, através do Acompanhamento Terapêutico (AT), a relação entre íntimo, intimidade e território no cuidado às pessoas em sofrimento mental grave, com foco na atenção à crise, em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) na cidade de Natal, Rio Grande do Norte. Sustentada pela psicanálise e interrogada pela decolonialidade, a pesquisa aposta nas possibilidades do AT na atenção à crise, enquanto dispositivo clínico e ético-metodológico que revela e reinscreve a tessitura entre público e privado, sujeito eterritório. Nesta prática de clínica-pesquisa “a céu aberto”, a escrita de ensaios busca registrar as experiências de AT, narrando encontros com três acompanhadas, em cenas que falam de corpo, intimidade, silenciamento, invasão, crise, relações, rua e cuidado, assim como da precarização do CAPS, interditado durante parte do estudo. Teoricamente, o trabalho articula as noções de infamiliar (unheimlich) em Freud, e de êxtimo, litoral e lalangue em Lacan, o que têm possibilitado nomear o AT como uma clínica-pesquisa que reinscreve o circuito pulsional na transferência e nas cenas do cuidado na atenção psicossocial, em contraposição às normatividades da manicolonialidade. Nesse caminho, o diálogo com Lélia Gonzalez e Emiliano de Camargo David, permite pensar o território em que esta clínica-pesquisa se realiza como constituído no entrelaçamento histórico entre o racismo estrutural, a herança colonial e a higienização psiquiátrica, o que se mostra na linguagem compartilhada, na geografia urbana de Natal e nas formas de nomear, produzir e lidar com a crise no campo da saúde mental. O trabalho realizado até o momento com o AT demonstra produzir outras possíveis margens para a atenção à crise, ao habitar litorais de intimidade que vem convocando a abordar a questão do gênero na pesquisa.