A VIA SACRA DAS MENINAS QUE ENGRAVIDARAM EM DECORRÊNCIA DA VIOLÊNCIA SEXUAL NO SERTÃO PERNAMBUCANO
Abuso sexual; Adolescente; Gestação; Sertão.
A violência sexual contra meninas é um grave problema de saúde pública no Brasil, atravessado por desigualdades de gênero, classe, raça, idade e território. No Sertão pernambucano, onde a precarização das políticas públicas se combina a moralidades patriarcais enraizadas, esses episódios tornam-se ainda mais complexos, especialmente quando resultam em gestações que alteram o curso da vida das adolescentes. Diante desse cenário, esta pesquisa de doutorado tem como objetivo analisar as experiências de adolescentes após a confirmação de uma gravidez decorrente da violência sexual, investigando os determinantes sociais e culturais que atravessam essas vivências e suas consequências. Esses objetivos se desdobram em compreender o acesso das adolescentes aos serviços essenciais de saúde, assistência social, educação e proteção, e identificar as repercussões desse evento em suas trajetórias de vida. A fundamentação teórica apoia-se na Teoria da Reprodução Social e no feminismo marxista, permitindo interpretar a violência sexual e a maternidade precoce como expressões de estruturas de exploração que organizam a reprodução da vida em contextos marcados pela desigualdade. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, orientada pelo materialismo histórico-dialético e com análise dados ancorada nos Núcleos de Significação. A coleta de dados ocorre por entrevistas com profissionais da rede de proteção, líderes religiosos, adolescentes e familiares, garantindo-se o anonimato por meio de pseudônimos inspirados na flora do Sertão. Até o momento, foram entrevistadas 14 pessoas, entre profissionais da saúde, assistência, educação, sistema de justiça e lideranças religiosas. As análises preliminares apontam núcleos de significação que evidenciam a influência da religiosidade, a naturalização da violência como relação afetiva e as falhas estruturais da rede de proteção. Esses achados revelam a persistência de estruturas patriarcais, raciais, etárias e territoriais que moldam a reprodução da violência sexual na região e reforçam a necessidade de políticas públicas mais efetivas e intersetoriais.