Perícia psiquiátrica e sistema penal brasileiro: uma etnografia documental dos laudos de exames de sanidade mental na Paraíba
etnografia documental; perícia psiquiátrica criminal; medida de segurança; exame de sanidade mental; Reforma Psiquiátrica antimanicolonial.
Previstos na legislação processual penal brasileira, os exames de sanidade mental integram os chamados incidentes de insanidade, instaurados quando se suspeita das condições psíquicas da pessoa acusada, durante o inquérito policial ou no curso do processo penal. Esta tese investiga o conteúdo dos laudos oriundos desses exames, recorridos como uma tecnologia para a produção de sujeitos considerados inimputáveis. Analisa como o direito penal e a psiquiatria se articulam nesse contexto para determinar a privação de liberdade, que recai, majoritariamente, sobre corpos racializados e empobrecidos. O estudo adota uma revisão integrativa da literatura e uma pesquisa de campo baseada na etnografia documental, tomando como artefatos etnográficos os laudos de exames de sanidade mental presentes nos autos de cinco incidentes distribuídos entre abril de 2021 e abril de 2023, no âmbito do sistema de justiça criminal da Paraíba. A investigação é orientada pela perspectiva antimanicolonial da Reforma Psiquiátrica — uma abordagem anticolonialista que se contrapõe aos paradigmas racistas historicamente implicados na constituição e na reprodução dos manicômios. A tese busca compreender as dinâmicas de poder na interface entre o sistema de justiça criminal e a psiquiatria, refletindo sobre como os saberes jurídico e psiquiátrico operam na seleção e controle da população encarcerada. Argumenta-se que as relações de poder colonialistas-modernas pressupõem uma dominação epistêmica, que sustenta a formulação de noções discriminatórias e a imposição de padrões e perspectivas de dominação. A análise dos laudos — tratados como artefatos etnográficos — suscita questionamentos sobre os contextos, agentes e racionalidades que orientam sua produção, revelando-os como instrumentos centrais na construção de sujeitos por meio da ação de atores estatais. A investigação preliminar reflete sobre como a produção desses laudos sustenta, atualiza e legitima o projeto colonial e racista, mesmo diante de marcos legais como a Lei federal no 10.216/2001, que veda internações em instituições de caráter asilar, e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.