O pensamento metafísico e epistemológico no Nachlass de juventude de Friedrich Nietzsche: continuidades e descontinuidades entre 1868 e 1873
Nietzsche; Metafísica; Epistemologia; Idealismo transcendental; Nachlass.
Partindo da premissa de que os fragmentos póstumos possuem relevância interpretativa na medida em que podem ser tomados como um parâmetro para localizar o aparecimento de conceitos fundamentais, acompanhar suas respectivas transformações e, desse modo, contribuir para o esclarecimento das posições filosóficas do autor, esta dissertação tem como objetivo investigar a hipótese segundo a qual, já nas primeiras reflexões filosóficas de Nietzsche, registradas no conjunto de notas intitulado Zu Schopenhauer, encontram-se delineadas determinadas posições metafísicas e epistemológicas — mais precisamente: a) a coisa em si se configura como um postulado metafísico, por princípio, inapreensível e inverificável, na medida em que não dispomos de critérios cognitivos seguros que permitam acessá-la, confirmá-la ou refutá-la — agnosticismo; b) todo conhecimento acerca daquilo que chamamos de mundo é, em última instância, produto de uma percepção construída e condicionada por nossa organização psicofisiológica e, portanto, permanece circunscrito a um domínio fenomênico — fenomenalismo epistêmico; e c) todo discurso acerca desse respectivo mundo assume inevitavelmente um caráter imagético e figurativo, o que, por sua vez, acentua a distância entre nossas representações e uma suposta realidade em si. Tais posições se prolongam, ainda que sob novas inflexões, até a redação do ensaio Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. Para tanto, tal hipótese exige a realização de uma reconstrução, no interior do labirinto subterrâneo do Nachlass de juventude nietzschiano, de um trajeto teórico que, com relativamente poucos desvios, conduza o jovem filólogo das suas primeiras reflexões acerca da metafísica schopenhaueriana à sua célebre investigação acerca da verdade e da linguagem, evidenciando os aspectos que permitem compreender tal deslocamento não como uma ruptura absoluta, mas como um processo de desenvolvimento e aprofundamento de questões já presentes em seus primeiros apontamentos.