Área de Concentração e Linhas de Pesquisa

ÁREA DE CONCENTRAÇÃO

            Os sertões, enquanto Área de Concentração, se justificam por ser um campo próprio de enunciação que remonta a uma longa tradição. Portanto, a despeito de estar diretamente associado à dimensão da espacialidade, sertão trata-se de uma noção muito específica de espaço: o outro, a oposição ao litoral, à costa, ao desconhecido. Por outro lado, a constituição de um campo de saber que se propõe a investigar essa espacialidade, de multifacetadas dimensões históricas e discursivas, se justifica pela própria historicidade do conceito de sertão, a partir de um amplo léxico em que as noções/conceitos foram abordados por diferentes escritos e aparecem como definidor da localização de inúmeros vestígios ricamente levantados/compulsados referentes à experiência histórica ameríndia e luso-afro-brasileira, permitindo que a partir das perspectivas recentes da historiografia se possa tornar suporte para uma ampla produção do conhecimento histórico. A área de concentração em questão se desdobra em duas linhas de pesquisa: Cultura material, sociedade e poder nos sertões; e Historiografia e Representações dos Sertões.

            A categoria sertão presta-se fundamentalmente ao exame da diferença. Entendido como lugar (habitado ou não), em sentido espacial ou histórico, o sertão, como visto anteriormente, foi constantemente algo dito para o Outro. Em diferentes contextos históricos e historiográficos, o sertão foi dito e visto como o Outro. Na língua do Estado ou dos conquistadores diversos, o não conhecido, o não verificado, o não dominado era chamado de “sertões”. Não há dúvida de que a partir do momento em que se radicalizaram as diferenças, sobremaneira, com as grandes navegações e a conquista política das Américas, da África e da Ásia pelos portugueses, cada vez mais a categoria “sertões” passou a compor certo sistema, na adaptação moderna, entre o submetido ao poder dos Estados absolutistas ou, posteriormente, grandes potências, e o que a eles escapava de alguma forma. O conceito de sertão, nesse sentido, é encontrado nos registros deixados pelos conquistadores de matriz ibérica – sobretudo, portuguesa – nas suas conquistas nas regiões acima mencionadas, para denominar o novo. Tal conceito, historicamente, transmuta-se e ganha outras denotações/conotações a partir da percepção humana sobre o novo, o distante, o Outro, tendo em vista a experiência de contato colonial enquanto fenômeno das sociedades modernas.

            Ora, os sertões não representam um espaço qualquer, mas marcam, efetivamente, as dimensões antropológicas de variadas experiências históricas em múltiplas temporalidades. O estudo da especificidade dos sertões tende a encaminhar para as alteridades, sejam elas quais forem, ultrapassando certa leitura estática e abstrata do próprio conceito de espaço pelos historiadores, desde o século XIX. Assim, a história dos sertões, ao contrário de ocupar-se do fomento às identidades espaciais, caracteriza-se, em nosso esforço de historicização do conceito, por uma área de estudos de e sobre as diferenças, sendo esta outra forma de se abordar questões políticas e culturais.

            A área de concentração em história dos sertões tem por característica a horizontalidade na exploração do conceito de sertão em diferentes contextos históricos e geográficos, mas, sobremaneira, a especificidade fundamental da verticalidade no enfrentamento de um conceito incontornável na compreensão da história brasileira e de outros espaços. Desse modo, a proposta de uma história dos sertões pretende operar como uma experiência, um espaço laboratorial no qual pode vir a serem exploradas diferentes concepções de comunidades humanas e suas relações, tendo por fio condutor, a ideia de sertão como conceito de movimento no tempo e no espaço, ideia essa deslocada de qualquer conotação periférica e identitária.

 


LINHAS DE PESQUISA

 

LINHA DE PESQUISA I - CULTURA MATERIAL, SOCIEDADE E PODER NOS SERTÕES: A linha de pesquisa Cultura Material, Sociedade e Poder nos Sertões acolhe investigações que busquem entender processos coletivos e individuais na historicidade de suas relações sociais e de poder nos sertões. Consideram-se tais relações em meio a suas permanências e mudanças no tempo, como conflitos, dominação, resistências e negociações. Trata da noção de poder enquanto mediador das relações sociais e possui uma dimensão simbólica que atua oficialmente através das instituições políticas, das religiosas e de produção de saberes acadêmicos, científicos, pedagógicos. Visa aprofundar, no âmbito dos sertões, as experiências dos indivíduos ou grupos, que historicamente, produziram uma cultura material. Partindo da compreensão de saberes que projetam sobre os corpos as marcas de velhos/novos códigos, o conceito de corpo não significa apenas fenômenos imateriais. Este também apresenta uma dimensão material que se expressa física e organicamente. No aspecto físico, a tecnologia e as técnicas funcionam como expansões orgânicas que permitem a interação dos indivíduos ou coletividades com o meio natural e social, constituindo paisagens culturais. Nesse sentido a cultura material é determinada por escolhas consensuais que permitem a delimitação de identidades e tradições culturais a partir da dimensão corpórea humana e seus desdobramentos materiais e espaciais. Trabalha-se com as seguintes temáticas: grupos sociais, vivências em função dos vestígios materiais; os aspectos arquitetônicos, como “ruínas” e antigas construções, casarios; artefatos dos diferentes grupos em suas vivências nos sertões; as leituras do corpo pela lógica disciplinadora, profilática ou higienista; instituições e políticas públicas de intervenção no espaço e natureza; as diferentes formas de exercício do poder através dos partidos, dos grupos, dos embates e plataformas políticas.

 

LINHA DE PESQUISA II - HISTORIOGRAFIA E REPRESENTAÇÕES DOS SERTÕES: A Linha de Pesquisa “Historiografia e Representações dos Sertões” foca nas representações de/sobre os sertões, amparada nas experiências de investigação, orientação e produções dos docentes envolvidos. Pensa-se os sertões enquanto uma espacialidade específica que, sincrônica e diacronicamente, foi e é objeto demarcatório de velhas e novas fronteiras, em múltiplas escalas, traduzindo-se em diferentes narrativas, suportes e usos do passado. Recai sobre esta espacialidade um rico e produtivo campo semântico que se coaduna com uma dimensão poliédrica de representações, entendida como as imagens que se projetam e são projetadas sobre as experiências dos homens e das instituições no/sobre os sertões. Desta forma, enfatiza-se nesta linha os estudos sobre a escrita da história dos sertões, a produção de memórias, biografias e trajetórias de vida ditas sertanejas; as representações sobre as qualidades e condições das pessoas que habitavam os diferentes sertões; os padrões de assentamento e as estratégias de adaptação ao meio ambiente nos sertões; as instituições, intelectuais e os agentes culturais produtores de materialidades e representações sobre os sertões; os saberes  pautados pela ideia de povo, de nação, de região tais como o folclore e a cultura popular; as tradições, crenças, ritos, costumes, práticas e discursos de grupos de identidades diversas; os sertões como tema das artes cênicas, do audiovisual e da iconografia; a construção dos mitos culturais, o imaginário, as utopias e as distopias sertanejas.

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