A RENASTT COMO REDE: ANÁLISE DA ARTICULAÇÃO, CONHECIMENTO E PRÁTICAS ENTRE OS PONTOS DE ATENÇÃO À SAÚDE NO INTERIOR NORDESTINO
Sistema Único de Saúde; Atenção à Saúde; Avaliação em Saúde; Serviços de Saúde do Trabalhador; Políticas de Saúde; Educação Permanente.
Introdução: A Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador e Trabalhadora (RENASTT) foi concebida como uma rede poliárquica para articular ações no SUS. No entanto, sua efetividade depende da integração entre os pontos de atenção, o que é desafiador no interior nordestino pela distância dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST). Objetivo: Analisar o conhecimento, as práticas e a percepção sobre a articulação da RENAST entre profissionais de nível superior da Rede de Atenção à Saúde (RAS) de Afogados da Ingazeira-PE, identificando nós críticos no território. Método: Estudo misto, transversal e descritivo-exploratório. Participaram 44 profissionais de nível superior (odontólogos, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, fonoaudiólogo, assistente social) da APS (30) e serviços especializados municipais (CER III, CEO, CAPS, Centro da Mulher). Utilizaram-se questionário eletrônico autoaplicável e entrevistas semiestruturadas. Dados quantitativos foram analisados por estatística descritiva e teste qui-quadrado (com teste exato de Fisher); dados qualitativos, por Análise de Conteúdo Temática de Bardin no software NVivo;
realizando-se triangulação descritiva. Resultados: Constatou-se que 43,2% dos participantes não tiveram contato com a área na graduação e 56,8% nunca participaram de educação permanente. Apenas 36,4% notificam no SINAN; 34,1% não possuem procedimento definido diante de agravo; e 6,8% encaminham ao CEREST. Desconhecimento do fluxo (47,7%), complexidade dos sistemas de informação (43,2%) e sobrecarga de trabalho (36,4%) foram os principais obstáculos. O teste qui-quadrado mostrou associação significativa entre participação em Educação Permanente em Saúde (EPS) e melhores práticas (χ²(4) = 16,83; p < 0,05; V de Cramér = 0,43 – efeito moderado). A análise qualitativa revelou cinco categorias: "A invisibilidade do trabalhador que adoece"; "A distância como barreira estrutural"; "Fragmentação e ausência de contrarreferência"; "Sobrecarga e adoecimento profissional"; e "Lacunas formativas e educação permanente". Dados do SINAN (2025) mostraram que o Hospital Regional Emília Câmara (HREC) respondeu por 95,9% das notificações de acidente grave, enquanto a APS notificou apenas 4 casos. Discussão: Os achados revelam que a RENASTT opera em "caos organizado", com subnotificação crônica e barreiras estruturais. A distância de 295 km do CEREST inviabiliza o apoio matricial, e a concentração das notificações no HREC evidencia a fragilidade da vigilância na APS. A negativa de acesso a unidades geridas pela OSS HTRI revela tensões entre gestão privada e os princípios do SUS, corroborando a tese da financeirização da saúde. O déficit formativo e a falta de EPS perpetuam a invisibilidade do adoecimento laboral. Considerações finais: A RENASTT local existe no papel, mas não na prática. A superação exige a criação da CIST municipal, programa de EPS, articulação com o novo CEREST de Serra Talhada e garantia de acesso de pesquisadores às unidades do SUS. O fluxograma proposto oferece subsídios para reorganizar a atenção no território, reafirmando a saúde no trabalho como direito humano inegociável.