Acesso, Cuidado Compartilhado e Rede de Apoio: Um Estudo Qualitativo sobre a Experiência da Gestante de Alto Risco no Sistema Único de Saúde
Pré-Natal de Alto Risco; Cogestão Interfederativa; Paternidade; Iniquidade Social
A Mortalidade Materna (MM) é um persistente indicador de iniquidade social e falhas sistêmicas na saúde pública, sendo o Pré-Natal de Alto Risco (PNAR) uma estratégia crucial para a sua redução, exigindo uma assistência coordenada, contínua e especializada. Neste contexto, o presente estudo teve como objetivos analisar a efetividade da co-produção do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), com ênfase na descontinuidade do acompanhamento multiprofissional, nas barreiras logísticas e no ônus financeiro, e discutir a importância e os impactos do envolvimento do parceiro e da rede de apoio na vivência da gestação de alto risco, a partir das percepções de mulheres acompanhadas em um serviço especializado de pré-natal. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, descritiva e exploratória, sendo realizada em uma maternidade no interior do Rio Grande do Norte, com mulheres acompanhadas pelo PNAR. O plano amostral utilizou a amostragem por conveniência, sendo a análise final composta por 18 participantes. A coleta de dados ocorreu entre outubro e novembro de 2024, por meio de entrevistas semiestruturadas, gravadas e transcritas. A análise dos dados foi feita pelo método de Análise de Conteúdo de Bardin (2011), com o auxílio do software Atlas.ti, e o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da FACISA-UFRN. Os resultados revelaram que, embora o modelo estrutural de cuidado compartilhado entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e serviços especializados esteja estabelecido e busque a integralidade com equipes multiprofissionais, sua eficácia é minada por falhas operacionais na gestão da rede. A desarticulação institucional manifesta-se em atrasos críticos no agendamento, estendendo o retorno solicitado para mais de um mês e transformando o risco clínico em risco gerencial. O acesso torna-se inefetivo, comprometendo a frequência de acompanhamento com especialistas e forçando a gestante a adotar o autocuidado informal. De modo ainda mais grave, a falha na cogestão transfere o ônus logístico e financeiro para a gestante, que arca com a compra de medicamentos vitais (como os de pressão) e materiais essenciais, além de depender de transporte municipal incerto para o deslocamento intermunicipal. Este cenário penaliza as gestantes de menor poder aquisitivo, reforçando a iniquidade social no acesso ao cuidado. Paralelamente às falhas do sistema, o envolvimento do companheiro se mostrou limitado por uma complexa rede de barreiras socioculturais e estruturais. Os principais entraves citados são as exigências da rotina laboral e a impossibilidade de liberação para consultas, a incompatibilidade de horários, o desinteresse e os conflitos conjugais. Essa ausência, que restringe a participação do parceiro apenas aos exames de imagem, evidencia um descompasso entre a expectativa da mulher e a realidade, gerando frustração, insegurança e sensação de negligência afetiva. A ausência masculina é reforçada por uma lógica cultural excludente que desvaloriza o papel do homem no cuidado, limitando-o à provisão financeira. A fragilidade desse apoio conjugal intensifica o estresse e a ansiedade, que podem agravar os riscos da gestação de alto risco. Conclui-se que a estrutura ideal do PNAR é duplamente comprometida: pela ineficiência administrativa (falha sistêmica) e pela limitação na participação do parceiro (barreira sociocultural), ambas transformando as barreiras em risco clínico e vulnerabilidade socioeconômica. Há uma necessidade urgente de aprimoramento da gestão da rede para que a cogestão interfederativa se traduza em eficiência e na implementação de políticas intersetoriais (saúde, trabalho e educação) que promovam a inclusão efetiva dos parceiros, garantindo a equidade, a integralidade e a redução da morbidade e mortalidade materna evitável.