"EM CADA TOM DE VERMELHO, UMA HISTÓRIA": NARRATIVAS DE TRABALHADORAS SEXUAIS QUE FAZEM USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS.
Mulheres. Trabalho sexual. Substâncias psicoativas. Redução do dano. Estigma Social.
A presente dissertação analisa as narrativas de mulheres trabalhadoras sexuais que fazem uso de substâncias psicoativas, situadas em contextos de vulnerabilidade social, a partir da interseção entre gênero, raça, classe, moralidades e estigmas. Considerando a invisibilização histórica dessas trajetórias no campo da Saúde Coletiva, o estudo se propôs a compreender os significados atribuídos pelas participantes às suas experiências com o uso de substâncias psicoativas, identificar os desafios enfrentados, examinar as percepções sobre as políticas proibicionistas e seus impactos na saúde, bem como verificar práticas de cuidado e estratégias de redução de danos mobilizadas por essas mulheres. Utilizou-se a metodologia qualitativa da História Oral Temática, ancorada na escuta sensível e na valorização das subjetividades, com base em 11 entrevistas semiestruturadas realizadas com mulheres vinculadas a uma associação de trabalhadoras sexuais no Nordeste brasileiro. As narrativas foram analisadas em três eixos: (1) moralização e hierarquias no consumo de substâncias psicoativas; (2) experiências de violência simbólica, sexual, institucional e policial; e (3) barreiras no acesso a serviços e práticas autônomas de cuidado e redução de danos. Os resultados revelam que o uso de substâncias é atravessado por dinâmicas complexas de sofrimento, resistência e agência, evidenciando que tais práticas não podem ser reduzidas a concepções biomédicas ou moralizantes. A criminalização e o estigma operam como dispositivos de exclusão, restringindo o acesso à saúde e intensificando a violência institucional. Ainda que muitas participantes reproduzam discursos proibicionistas, observam-se formas criativas e autônomas de cuidado que desafiam a lógica biomédica e punitiva, sobretudo em espaços coletivos como associações. A pesquisa contribui ao aprofundamento da compreensão crítica sobre as relações entre trabalho sexual, consumo de substâncias psicoativas e políticas públicas, reforçando a necessidade de abordagens interseccionais e antiproibicionistas na formulação de estratégias de cuidado e promoção da saúde para populações historicamente marginalizadas.