“Quem não é visto, não é lembrado”: um olhar crítico sobre a autoapresentação on-line na gestão da marca pessoal de mulheres empresárias
gestão da marca pessoal; teoria da autoapresentação; mulheres empresárias; redes sociais on-line; netnografia.
As mudanças de perspectiva no contexto dos negócios, intensificadas pelo crescente uso das redes sociais on-line, têm ampliado a centralidade da gestão da marca pessoal na atuação profissional. Esse movimento tem adquirido relevância particular entre mulheres empresárias de micro e pequenas empresas, para as quais o Instagram vem se consolidando como um dos principais mecanismos de visibilidade, comunicação e relacionamento com o público. Embora a literatura sobre personal branding acompanhe esse movimento, ainda prevalecem abordagens centradas em motivações, benefícios e estratégias, enquanto os desafios, tensões e implicações negativas da autoapresentação permanecem pouco explorados. Esta tese se insere nessa lacuna ao aprofundar a compreensão de aspectos adversos associados à autoapresentação on-linee de como esses fatores incidem sobre a gestão da marca pessoal dessas empresárias. Diante a esse contexto, o objetivo desta tese foi analisar criticamente como aspectos inerentes à autoapresentação nas redes sociais on-line influenciam a gestão da marca pessoal de mulheres empresárias nesse ambiente. Para isso, buscou-se compreender como elas organizam sua autoapresentação, identificar os desafios que atravessam esse movimento e propor um framework que auxilie na mitigação dessas dificuldades. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa de natureza netnográfica, com coleta de dados realizada no Instagram por meio de observação, observação participante e entrevistas semiestruturadas. A análise, assistida pelo software Atlas.ti, envolveu codificação em dois ciclos, elaboração de notas, refinamento das categorias e articulação com a literatura de personal branding e teoria da autoapresentação. Os resultados mostraram que a autoapresentação on-line, com fins de gestão da marca pessoal, ocorre em um processo contínuo de regulação da própria imagem, no qual as empresárias administram simultaneamente visibilidade, coerência e controle narrativo. As estratégias usadas para consolidar a marca – escolha de conteúdos, formatos, argumentos e graus de abertura da vida pessoal – variam conforme o sentido atribuído ao que é publicado e os limites que cada mulher estabelece para si. Contudo, esse movimento não se resume ao campo estratégico: ele é atravessado por tensões que afetam diretamente o bem-estar, como as demandas da rotina, a conciliação entre papéis, a pressão por constância, inseguranças e mecanismos de autocensura que produzem desgaste emocional e sensação recorrente de sobrecarga. A análise crítica evidenciou que a lógica de visibilidade contínua intensifica a autorregulação e alimenta uma sensação recorrente de cansaço, mostrando que a gestão da marca pessoal envolve tensões que ultrapassam as recomendações técnicas comumente difundidas. A partir desses achados, foi desenvolvido um framework composto por cinco dimensões que sintetiza elementos centrais para uma gestão mais consciente da marca pessoal. O modelo contribui ao deslocar o debate de recomendações prescritivas para uma compreensão mais crítica e humana da autoapresentação, reconhecendo que esse processo envolve não apenas escolhas de comunicação, mas também negociações emocionais e identitárias. Teoricamente, a tese avança ao demonstrar que a autoapresentação não é apenas uma prática estratégica, mas uma experiência marcada por vulnerabilidades e dilemas. No campo prático, oferece diretrizes que podem apoiar empresárias e profissionais no desenvolvimento de estratégias menos exaustivas e mais alinhadas às características específicas da natureza humana.