DIAGNÓSTICO, MORTALIDADE E QUALIDADE DA INFORMAÇÃO SOBRE CÂNCER DE MAMA NO BRASIL: DESIGUALDADES REGIONAIS E SOCIOECONÔMICAS
Neoplasias da mama; Mortalidade; Saúde da mulher; Iniquidades em saúde; Desigualdades socioeconômicas; Qualidade da informação em saúde.
Introdução: O câncer de mama é a neoplasia mais frequente entre mulheres no Brasil e uma das principais causas de morte por câncer na população feminina. Sua distribuição heterogênea reflete desigualdades estruturais no acesso aos serviços de saúde e na qualidade dos sistemas de informação, com sub-registro de óbitos e causas mal definidas afetando de forma mais intensa as regiões Norte e Nordeste.
Objetivo: Analisar o diagnóstico, a mortalidade e a qualidade da informação sobre o câncer de mama no Brasil, considerando as desigualdades regionais e socioeconômicas, no período de 2000 a 2023.
Métodos: A tese integra quatro estudos epidemiológicos complementares. O primeiro, retrospectivo de base populacional, avaliou o impacto da pandemia de COVID-19 no diagnóstico do câncer de mama (12.597 casos; 2019–2020), utilizando regressão logística binária para identificar preditores do atraso diagnóstico. Os três estudos seguintes, de delineamento ecológico, analisaram a mortalidade por câncer de mama nas 27 unidades federativas (2000–2023) sob três perspectivas analíticas distintas: distribuição espacial, por autocorrelação de Moran e LISA; tendências temporais, por regressão de Prais-Winsten com estimativa da variação percentual anual; e determinantes socioeconômicos e de acesso aos serviços de saúde, por correlações de Spearman e regressão linear múltipla com seleção por AIC. Em todos os estudos ecológicos, os dados de mortalidade foram submetidos a um protocolo de correção baseado nas metodologias da OMS e do IBGE, compreendendo redistribuição proporcional de causas mal definidas, redistribuição de diagnósticos oncológicos incompletos e ajuste demográfico por fatores derivados das tábuas de vida femininas do IBGE 2024. As taxas de mortalidade foram padronizadas por idade pelo método direto, com a população padrão da OMS (2000–2025).
Resultados: A pandemia de COVID-19 reduziu em 50,2% os diagnósticos de câncer de mama e ampliou o tempo médio entre a primeira consulta e a confirmação diagnóstica de 28 para 36 dias nos primeiros seis meses. O atraso diagnóstico foi associado à menor escolaridade, à residência nas regiões Norte, Nordeste ou Centro-Oeste e ao estadiamento não avançado, com agravamento dessas desigualdades durante a pandemia. Nos estudos de mortalidade, os procedimentos de correção elevaram o número estimado de óbitos em 17,3% no período 2000–2023 na análise espacial, com ajustes que alcançaram 69,9% nas regiões Norte e Nordeste nos anos iniciais da série, declinando progressivamente ao longo do tempo. A análise de tendências revelou variação percentual anual corrigida de 0,28% (IC 95%: 0,19–0,38) para o Brasil, com crescimento significativo no Norte (0,73%), Nordeste (0,82%) e Centro-Oeste (1,18%), padrão estacionário no Sudeste e tendência decrescente no Sul (−0,21%). A análise LISA identificou clusters persistentes de alta mortalidade no Sudeste e Sul e de baixa mortalidade no Norte e Nordeste, com modificação de algumas classificações após a correção dos dados. Na análise dos determinantes socioeconômicos, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal foi o preditor mais consistente da mortalidade, com os modelos baseados em dados corrigidos apresentando maior poder explicativo (R² = 59,5%) em relação aos modelos com dados brutos (R² = 54,2%).
Conclusão: Este estudo revela que a carga real do câncer de mama no Brasil é maior do que os registros oficiais indicam, especialmente nas regiões mais vulneráveis, e que as desigualdades regionais e socioeconômicas condicionam tanto o acesso ao diagnóstico quanto os padrões de mortalidade. A pandemia amplificou iniquidades preexistentes no diagnóstico. A incorporação sistemática de procedimentos de correção dos dados de mortalidade é fundamental para estimativas mais precisas e para o planejamento de políticas de controle do câncer com maior equidade.