De Cidade a Slogan: A apropriação do discurso da “Cidade para Pessoas” e o planejamento urbano em Natal/RN
Planejamento urbano e Teoria Crítica; Produção do espaço e discursos; Cidade para pessoas; Jan Gehl; Mobilidade de políticas; Análise do Discurso Crítica.
A pesquisa investiga os discursos de apropriação da expressão “cidade para pessoas”, formulada e difundida pelo arquiteto Jan Gehl, com ênfase nas mudanças decorrentes do processo de revisão do Plano Diretor de Natal/RN e nas intervenções urbanísticas implementadas entre 2018 e 2024.A problemática identifica que, nesse período, na cidade do Natal, agendas urbanas globais e discursos de “boas práticas” têm fortalecido, em Natal, narrativas de neoliberalização e empresariamento do planejamento urbano, associando-os à incidência do mercado imobiliário em atributos de modernização, sustentabilidade, segurança e qualidade de vida, frequentemente apresentados como soluções técnicas consensuais em coalizões público-privadas marcadas por seletividade territorial. Nesse cenário, a tese problematiza como discursos mobilizadores pró-mercado, ancorados na noção de “cidade para pessoas”, vêm sendo apropriados e operacionalizados no planejamento urbano contemporâneo de Natal/RN, examinando seu papel na legitimação de intervenções e mudanças normativas e seus efeitos na reconfiguração do paradigma do planejamento urbano, à luz das tensões entre a promessa humanizadora e as desigualdades socioespaciais persistentes. O trabalho tem como objetivo compreender as transformações no planejamento urbano contemporâneo em Natal/RN a partir de discursos mobilizadores pró-mercado e do uso da noção de “Cidade para Pessoas” como legitimador de novas práticas, analisando suas formas de apropriação, tradução e disputa por diferentes atores e seus efeitos na produção social do espaço. Parte-se da hipótese de que esses discursos, quando mobilizados pelo poder público em articulação com agentes do mercado imobiliário, operam como dispositivos simbólicos de legitimação, promovendo o deslocamento do planejamento enquanto instrumento estruturante de regulação territorial para um paradigma orientado por intervenções seletivas, visibilidade espacial e performatividade da gestão, ao mesmo tempo em que naturalizam formas de governança urbana empresarializadas e a reprodução desigual dessas práticas no território. Para alcançar esse objetivo, a pesquisa adota abordagem qualitativa articulando revisão sistemática da literatura, análise documental e análise empírica do espaço urbano. A metodologia organiza-se em quatro etapas: (a) consolidação do arcabouço teórico-crítico; (b) constituição de um corpus discursivo composto pelas obras-chave de Gehl e por documentos normativos e institucionais locais, comunicação governamental, materiais do mercado imobiliário, manifestações de entidades e movimentos sociais e conteúdos midiáticos; (c) aplicação da Análise do Discurso Crítica, conforme Fairclough, integrando análise textual, práticas discursivas e prática social; e (d) articulação da análise discursiva com leitura espacial e morfológica das materializações do discurso, resultando em uma cartografia discursiva sustentada por matriz de rastreabilidade. Ao tratar Jan Gehl não como referencial normativo, mas como objeto discursivo e empírico, a pesquisa busca contribuir para o debate crítico sobre governança urbana contemporânea, produção ideológica do espaço e limites das abordagens humanizantes quando dissociadas de uma análise estrutural das desigualdades urbanas.