DISCURSOS E REPRESENTAÇÕES DOS CORPOS DURANTE A DITADURA MILITAR NO BRASIL (1968-1979)
Corpo; Ditadura Militar Brasileira; Discurso; Representação; Tortura.
O objeto de estudo desta tese são as representações e discursos sobre os corpos humanos produzidos nos anos de vigência do AI-5 durante a ditadura militar no Brasil. Para historicizá-los, analisamos documentos originários dos órgãos de censura e repressão (principalmente os da DCDP: Divisão de Censura de Diversões Públicas), cartas de cidadãos comuns endereçadas ao governo, registros de memórias, matérias de revistas e produção bibliográfica sobre o recorte temporal pesquisado. A partir da análise documental, sustentamos nosso questionamento sobre o contexto das enunciações e dos silenciamentos, que construíram estereótipos imagéticos-discursivos, verdades e naturalizações sobre os corpos daquele contexto. A problemática desta tese nos aponta a compreensão do corpo como um locus privilegiado para a historicização da produção de discursos e elementos simbólicos que sustentaram a relação entre as questões macrossociais e micropolíticas durante a ditadura militar no Brasil. Este processo de historicização do corpo possibilitou compreender as dinâmicas de poder e circulação de saberes que substanciavam os discursos e representações presentes nos pareceres dos órgãos de censura e repressão, os quais alegavam, com radicalidade, a “defesa da moral e dos bons costumes”. A criminalização e estigmatização de corpos considerados “indesejáveis”, “desviantes” e “imorais” nos pareceres revelaram a presença de uma pedagogia autoritária e saneadora. Assim, concluímos que o regime ditatorial não se sustentou ou se impôs apenas com base em aparatos bélicos e repressivos. Neste desafiante processo de historicização, está presente o reconhecimento da dimensão política e simbólica da utilização da tortura, apontando-a como deliberado desejo de ataque e correção aos corpos rebelados, bem como exaltação do poder punitivo extremado. Estão inclusos neste processo de historicização a relação da ‘moral revolucionária’ das esquerdas do período com os corpos e a resistência dos artistas diante do violento processo de vigilância, censura e repressão de suas produções durante a vigência do Ato Institucional nº 5.