De Zu Schopenhauer a Humano, demasiado humano: continuidades e descontinuidades metafísico-epistemológicas no Nachlass de juventude de Nietzsche
Nietzsche; Metafísica; Epistemología; Idealismo transcendental; Naturalismo.
Partindo da premissa de que os fragmentos póstumos possuem relevância interpretativa na medida em que podem ser tomados como um parâmetro para localizar o aparecimento de conceitos fundamentais, acompanhar suas respectivas transformações e, desse modo, contribuir para o esclarecimento das posições filosóficas do autor, esta dissertação investiga a hipótese segundo a qual, já nas primeiras reflexões registradas no conjunto de notas intitulado Zu Schopenhauer, encontram-se delineadas determinadas posições metafísicas e epistemológicas — mais precisamente: a) a coisa em si se configura como um postulado metafísico, por princípio, inapreensível e inverificável, na medida em que não dispomos de critérios cognitivos seguros que permitam acessá-la, confirmá-la ou refutá-la; b) todo conhecimento acerca daquilo que chamamos de mundo é, em última instância, produto de uma percepção construída e condicionada por nossa organização psico-fisiológica; e c) todo o discurso acerca desse respectivo mundo permanece irremediavelmente circunscrito a um domínio imagético e figurativo, sendo, por isso mesmo, incapaz de corresponder a uma realidade objetiva —, as quais se prolongam, ainda que sob novas inflexões, até a publicação de Humano, demasiado humano. Para tanto, o trabalho se propõe a reconstruir, no interior do labirinto subterrâneo do Nachlass de juventude nietzschiano, um trajeto teórico que, com relativamente poucos desvios, conduza ao período de sua transformação em “espírito livre”, evidenciando os aspectos que permitem compreender tal deslocamento não como uma ruptura absoluta, mas como um processo de desenvolvimento e aprofundamento de questões já presentes em seus primeiros apontamentos.