Análise etnomusicológica e interpretativa da Suíte Qüase entre Schöenberg e o Nordeste de Beetholven Cunha Suíte Qüase de Beetholven Cunha
Suíte Qüase; Serialismo dodecafônico; Etnomusicologia da performance.
Esta pesquisa, de natureza artística e qualitativa, com abordagem analítico-interpretativa, investiga a Suíte Qüase ou "Entre Schoenberg e o Nordeste" de Beetholven Cunha (2025), obra para violino e contrabaixo acústico em cinco movimentos que sintetiza procedimentos dodecafônicos da Segunda Escola de Viena com gêneros da música tradicional nordestina brasileira: martelo, aboio, caboclinhos, seresta e frevo. A pesquisa parte de uma posição singular: o autor, violinista Diego Silva Araújo, é ao mesmo tempo o encomendante da obra, seu intérprete estreante e seu analista. A obra foi solicitada por ele ao compositor com parâmetros de formação instrumental, caráter nordestino e duração aproximada de quinze minutos; entregue em menos de um mês, com título e concepção estética próprios do compositor, sem participação do intérprete no processo composicional. O recital de mestrado Poty Duo e suas raízes musicais (EMUFRN, maio de 2026), realizado com André Borges ao contrabaixo, funcionou simultaneamente como produto artístico e fonte de dados da pesquisa. A investigação articula três eixos complementares: análise dodecafônica das quatro séries canônicas e suas matrizes de 12x12; estudo etnomusicológico dos gêneros nordestinos com base na metodologia semiótico-hermenêutica de Philip Tagg (2003); e documentação do processo colaborativo entre intérpretes e compositor, no qual as decisões interpretativas (incluindo acréscimos de cordas duplas, recursos de timbre e intervenções vocais) foram tomadas autonomamente e posteriormente validadas por Beetholven Cunha em encontros remotos. Os resultados evidenciam que a obra opera por interpenetração dialógica entre as duas tradições, gerando uma terceira linguagem onde serialismo e nordestinidade coexistem sem hierarquia. O modelo de validação pós-composiciona, configurado nesta pesquisa, no qual a autonomia interpretativa precede e é reconhecida pelo compositor, constitui contribuição teórica ao campo dos estudos da performance. A metodologia integrada proposta pode ser aplicada a outras obras do repertório camerístico brasileiro contemporâneo que estabeleçam diálogos análogos entre tradições eruditas e populares.