A implementação da PrEP e seus reflexos na incidência de HIV no Brasil: uma análise dos determinantes sociodemográficos e assistenciais
Epidemiologia. Doenças Transmissíveis. Infecções por HIV. Profilaxia Pré-Exposição. Desigualdades de Saúde.
A infecção pelo HIV permanece como um importante problema de saúde pública no Brasil, apesar dos avanços no tratamento antirretroviral e na ampliação de estratégias de prevenção, como a profilaxia pré-exposição (PrEP). Paralelamente, observa-se um cenário marcado por desigualdades em saúde, tanto no acesso aos serviços quanto na distribuição da doença entre diferentes grupos populacionais. Ademais, o envelhecimento das pessoas vivendo com HIV e a coexistência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) impõem novos desafios à organização do cuidado. Nesse contexto, esta pesquisa objetiva analisar a associação entre iniquidades em saúde e a incidência de HIV/AIDS no Brasil, comparando os períodos anterior e posterior à implementação da PrEP no Sistema Único de Saúde, considerando determinantes sociodemográficos e aspectos relacionados à organização dos serviços de saúde. Trata-se de uma pesquisa composta por três estudos complementares. O primeiro consiste em uma revisão rápida de escopo, baseada na metodologia do Instituto Joanna Briggs, que investigou a organização e integração do cuidado na sindemia HIV-DCNT. O segundo e o terceiro são estudos ecológicos com dados secundários. O segundo analisou a tendência temporal da incidência de HIV no Brasil entre 2011 e 2024, utilizando modelos de regressão por pontos de inflexão (Joinpoint). O terceiro avaliou, por meio de regressão linear múltipla, a associação entre a incidência de HIV e características da rede de serviços relacionadas à oferta da PrEP no período de 2018 a 2024. Os achados evidenciam que, apesar de uma redução global de 14,3% na incidência de HIV após a implementação da PrEP, essa diminuição ocorreu de forma desigual entre regiões e grupos populacionais. Regiões como Norte e Centro-Oeste apresentaram aumento das taxas, enquanto Sul e Sudeste registraram redução. Persistem disparidades importantes, com maior impacto em populações vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens e pessoas pardas, além de um aumento inesperado entre indivíduos com maior escolaridade e na faixa etária de 50 a 59 anos. No que se refere à organização dos serviços, observou-se que a maior proporção de atendimentos em serviços especializados está associada à redução da incidência de HIV. Entretanto, há desigualdades na oferta e no acesso à PrEP, com menor cobertura em regiões mais vulneráveis. Adicionalmente, a revisão de escopo revelou que o cuidado às pessoas vivendo com HIV, especialmente na presença de DCNT, ainda é predominantemente fragmentado, dificultando respostas efetivas às necessidades complexas dessa população. A implementação da PrEP contribuiu para a redução da incidência de HIV no Brasil, porém seus efeitos são heterogêneos e influenciados por desigualdades sociodemográficas e estruturais. Os resultados indicam que a ampliação do acesso, por si só, não é suficiente, sendo essencial fortalecer a organização das redes de atenção à saúde, com integração do cuidado e foco nas populações mais vulneráveis. Estratégias mais equitativas e territorialmente sensíveis são necessárias para potencializar o impacto das políticas de prevenção e controle do HIV no país.