TRANSTORNO MENTAL COMUM E QUALIDADE DE VIDA DE PESSOAS COM DOENÇA FALCIFORME NO ESTADO DA PARAÍBA
Desigualdade racial em saúde. Determinantes sociais em saúde. Dor crônica. Epidemiologia. Saúde mental.
A doença falciforme (DF) é uma doença crônica grave, distribuída por todo o Brasil e com grande variedade de sintomas e complicações clínicas, especialmente a dor. Mais frequente entre a população negra, os pacientes sofrem de complicações psicológicas e problemas de saúde mental que frequentemente não são reconhecidos nem tratados. Ainda pouco se sabe sobre a relação entre as características socioeconômicas e demográficas e a saúde mental e qualidade de vida (QV) dessas pessoas no país. Esta pesquisa analisou a prevalência de transtorno mental comum (TMC) e a QV em pessoas com DF no estado da Paraíba, investigando os fatores sociodemográficos, clínicos e assistenciais associados. Trata-se de um estudo transversal, que incluiu 119 adultos com DF, residentes em 42 municípios paraibanos. Os dados foram coletados por meio de três instrumentos: um questionário sociodemográfico e de saúde, o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) para rastreio de TMC e o World Health Organization Quality of Life-bref (WHOQOL-Bref) para avaliação da QV. Foram aplicados os testes t de Student, ANOVA one way, Regressão de Poisson, Análise Fatorial Confirmatória, Correlação de Spearman e Regressão Linear. A população estudada foi majoritariamente negra, com baixa escolaridade e renda e apresentou alta vulnerabilidade social. Houve uma prevalência elevada de sintomas sugestivos de TMC (57,6%; IC95%: 48,7%–66,5%), sendo associado ao sexo feminino, ter maior frequência de dor e ter sofrido racismo durante o atendimento em saúde; ainda para este desfecho, trabalhar e estudar funcionam como fatores protetores. A qualidade de vida se mostrou baixa, com o domínio físico sendo o mais afetado, especialmente nos aspectos de dor e recursos financeiros. A análise de regressão demonstrou que a presença de sintomas de TMC, a frequência de dor, a renda familiar e a percepção sobre a capacitação dos profissionais de saúde impactaram negativamente todos os domínios da QV. A experiência de viver com DF na Paraíba é atravessada por múltiplas vulnerabilidades sociais e por falhas no sistema de saúde, como o diagnóstico tardio e o acesso desigual ao tratamento entre os territórios. Esta tese contribui para ampliar a compreensão sobre a relação entre sofrimento psíquico, QV e determinantes sociais em saúde, fornecendo subsídios para práticas clínicas mais sensíveis e políticas públicas que favoreçam o cuidado integral, com atenção especial às dimensões estruturais que perpetuam desigualdades.