WEBSÉRIES BRASILEIRAS INDEPENDENTES: DA CARTOGRAFIA À CARACTERIZAÇÃO DAS PRODUÇÕES DE FICÇÃO SERIADA DE NARRATIVAS LÉSBICAS
webséries brasileiras; narrativas lésbicas; audiovisual independente; visibilidade; sexualidades dissidentes.
A presente tese investiga a consolidação e os impactos das webséries brasileiras independentes com narrativas protagonizadas por personagens lésbicas, observando como essas produções operam na tensão entre a ruptura e a manutenção das normatividades audiovisuais. A pesquisa parte da contextualização da produção audiovisual independente no país, seguida por uma densa apresentação sobre a evolução das discussões acadêmicas a respeito da conceituação e caracterização das webséries, estabelecendo um diálogo especialmente com Zanetti (2013) e Hergesel (2016, 2018, 2021). O objetivo central é compreender de que maneira esse formato, distribuído em plataformas colaborativas como o YouTube, se diferencia da gramática televisiva hegemônica, inaugura arranjos produtivos e estéticos e institui novas economias de visibilidade para as sexualidades dissidentes. Metodologicamente, reconheço o espaço da subjetividade na pesquisa, e aciono a cartografia como método que acompanha os movimentos de transformação da paisagem (Rolnik, 2011), articulada à catalogação da produção de webséries centradas em narrativas lésbicas na última década (2014-2024). Esse processo culmina na análise qualitativa de um corpus composto por produções de amplo alcance e premiadas no Rio Webfest, as webséries RED, SEPTO, Stupid Wife, Os Signos da Minha Ex e Nina. Apoiada no pensamento foucaultiano (1988, 2012) sobre sexualidade, discurso e poder, na matriz interseccional de Collins e Bilge (2021) e nas discussões de Butler (2018) sobre performatividade de gênero, o estudo revela um cenário complexo. Os resultados evidenciam que as webséries instauram um discurso explícito na materialização do desejo lésbico e uma estética de naturalização dos afetos, rompendo com a visibilidade ambivalente e os interditos característicos da produção ficcional seriada televisual tradicional. Por outro lado, constato também a manutenção de processos de higienização normativa, marcados pela realidade de privilégios de classe das protagonistas e pela reiteração do ideal de magreza e branquitude, padrão este tensionado por SEPTO, websérie que rompe também a hegemonia produtiva do eixo Rio-São Paulo. Por fim, concluo que essas narrativas configuram um território de constante negociação política e estética, se consolidando como potentes dispositivos de legitimação identitária e produzindo novas verdades sobre as mulheres que amam mulheres.