ENTRE ALGORITMOS E VERDADES: UMA LEITURA GENEALÓGICA DA GOVERNAMENTALIDADE DO JORNALISMO
Governamentalidade Algorítmica; Midiatização Profunda; Autonomia algorítmica condicionada; Subjetivação profissional; Jornalismo em plataforma digital
Esta tese investiga como a governamentalidade algorítmica, enquanto racionalidade política e técnica ancorada na datificação, na vigilância e na predição, incide sobre as rotinas produtivas, os critérios editoriais e os regimes de verdade do jornalismo em ambientes digitais. Em diálogo com a obra foucaultiana, especialmente com as noções de governamentalidade, regime de verdade e processos de subjetivação (Foucault, 2010; 2025), a pesquisa propõe uma reinscrição analítica de seu pensamento no campo do jornalismo, tomando-o como operador crítico para compreender as transformações contemporâneas da prática profissional sob mediação algorítmica. Articulam-se, sobretudo, os aportes de Rouvroy e Berns (2015), Couldry e Hepp (2020), Sodré (2021) e Zuboff (2020). Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa (Figaro, 2014; Caballero, 1998) orientada por uma leitura genealógica e por uma tecnologia de escuta (Foucault; 2024a, 2008), com entrevistas em profundidade realizadas com jornalistas de redações digitais do Rio Grande do Norte, estado do Nordeste brasileiro. A análise examina as práticas discursivas e os modos de subjetivação profissional diante da centralidade das métricas de audiência e dos sistemas de recomendação. Como proposição teórica, a tese sustenta a noção de autonomia algorítmica condicionada, compreendida como a reconfiguração da autonomia editorial em um contexto no qual as decisões jornalísticas permanecem formalmente livres, porém continuamente moduladas, tensionadas e orientadas por dispositivos algorítmicos de mensuração e visibilidade. Os resultados indicam que, embora persistam referências éticas e valores clássicos da profissão, consolida-se um regime híbrido no qual a correlação estatística passa a disputar espaço com o juízo qualitativo, produzindo novas formas de sujeição, negociação e resistência no interior do jornalismo contemporâneo.