CINEMA DE LUGAR: A IMPORTÂNCIA DO LUGAR PARA A CONSTRUÇÃO DE NARRATIVAS INSCRITAS
Cinema de lugar, Porto do Capim, Afetividades, Modo de produção, Análise fílmica
Esta pesquisa investiga como o cinema pode ser compreendido como prática de lugar. A partir da experiência na comunidade ribeirinha Porto do Capim, em João Pessoa (PB), parte-se da formulação do conceito de Cinema de Lugar para analisar como os sujeitos, seus vínculos com o espaço e as estratégias narrativas e estéticas se entrelaçam na construção de sentidos a partir da ideia de “topofilia” (Tuan, 2012). Sob a perspectiva experiencial (Tuan, 1983), questiona-se: como se produzem filmes a partir das experiências e vínculos de afetividades com o espaço, de modo que essas práticas de produção (modo de produção de lugar) estejam alinhadas às agendas da comunidade e possibilitem sua afirmação como sujeito inscrito na obra audiovisual? O objetivo geral do estudo é elaborar uma proposta de modo de produção que observe o processo fílmico a partir do espaço geográfico/físico e da ideia de lugar, visando um fazer cinematográfico consciente e comprometido com o lugar. Foram definidos os seguintes objetivos específicos: (1) construir um conceito que contemple o processo fílmico fundamentado no lugar; (2) descrever um percurso metodológico para a realização de cinema a partir do lugar; e (3) sistematizar uma abordagem analítica denominada análise fílmica de lugar. O conceito de Cinema de Lugar baseia-se em três elementos fundamentais — Lugar, Sujeito e Afetividades —, ancorados em referenciais teóricos como Tuan (1983, 2012), Milton Santos (1978, 1979, 1982, 1985, 2000), Stuart Hall (2003, 2005, 2016), Dussel (1993, 2016) e Antônio Bispo dos Santos (2017, 2023). A sistematização do método foi realizada por meio da vivência na comunidade, na qual buscou-se conduzir o processo de forma mais horizontal, com interesses e agendas negociados com as agentes locais. Já a análise fílmica de lugar foi desenvolvida a partir do conhecimento empírico e da reflexão sobre diferentes abordagens analíticas, propondo um deslocamento sensível e/ou simbólico do pesquisador em relação ao lugar – seja pela presença física, seja por meio de investigações documentais e midiáticas. Como aplicação prática da proposta, foram analisadas três obras produzidas no Porto do Capim: Aponta pra fé – ou todas as músicas da minha vida (2020), Cumadre Fulorzinha (2020) e Mimi-Cuba (2021). A seleção seguiu o critério de saturação, e considerou diferentes formatos de aplicação do Cinema de Lugar nessa comunidade. A pesquisa descreve um percurso metodológico que abrange desde o primeiro contato com o território até a exibição do filme. Inicialmente, a análise fílmica está ancorada em modelos sugeridos por Penafria (2019) e Aumont e Marie (2003, 2013). Posteriormente, adota uma abordagem relacional e interdisciplinar, que exige um deslocamento ao lugar/comunidade — físico ou simbólico — por parte do pesquisador. A tese resultante deste estudo mostra que a construção de filmes de lugar oferece mais possibilidades de assegurar a presença das comunidades tanto na narrativa quanto no processo fílmico, garantindo que sua inscrição ocorra de maneira autônoma e consciente. Conclui-se que a realização do cinema de lugar, fundamentado na ideia de lugar e na topofilia, sobretudo em grupos tradicionais, contribui para a produção sensível de filmes, para o fortalecimento dos modos de produção brasileiros e para o desenvolvimento das epistemologias cinematográficas do eixo sul global.