Uma história em três tempos embaralhados pelo espaço de memória traumatizado: o ensino vocacional de São Paulo (1961-1970)
ensino-vocacional; ginásios-vocacionais; trauma-histórico; espaço-de-memória; espaço-de-memória-traumatizado.
O objetivo desta pesquisa é analisar a experiência do ensino vocacional a partir do conceito de espaço de memória traumatizado. Formado pelos Ginásios Vocacionais e pelo Serviço de Ensino Vocacional, esse sistema de ensino se desenvolveu no Estado de São Paulo durante a década de 1960, entre 1961 e 1970, e abrangeu, ao todo, seis unidades, uma na capital paulista e as demais espalhadas por cidades do interior: Americana, Batatais, Barretos, Rio Claro e São Caetano do Sul. Analisam-se as narrativas históricas elaboradas sobre essa experiência, bem como documentação primária, com o intuito de compreender em que medida o fim imposto pelo Estado Militar afetou a memória e constituição de sentido histórico. A análise documental se deu sobre fontes recolhidas no CEDIC, da PUC de São Paulo, matérias de jornal e textos de revista disponíveis no site da Hemeroteca Digital e os processos militares impetrados contra o ensino vocacional, disponíveis no site do Arquivo Nacional. Trabalhou-se também com depoimentos e outras fontes recolhidas da historiografia analisada. Assim, discute-se a prática pedagógica dessas escolas e a filosofia que a fundamentou, destacando-se textos de quatro filósofos: Henrique Lima Vaz, Teilhard de Chardin, Emmanuel Mounier e Karl Marx, entendidos pela historiografia como relevantes para a experiência. Por meio do conceito de espaço de memória traumatizado, percebe-se que a atribuição de uma filosofia consistente para o ensino vocacional foi feita a posteriori, em decorrência do trauma histórico correspondente ao fim imposto. Além disso, analisam-se as narrativas históricas sobre as origens, o desenvolvimento e as crises sofridas pelos agentes desse sistema de ensino. Por meio de documentação primária, confronta-se a seleção de fatos, a transformação destes em fatos históricos, e o significado disso para a constituição histórica de sentido, também afetada pelo trauma histórico. Por fim, analisam-se os acontecimentos relativos ao fim da experiência, datado pela historiografia entre 1968 e 1969. A documentação primária, nesse caso, concernente à instalação dos Pluricurriculares e aos processos militares, permite perceber disputas pela hegemonia da renovação pedagógica em São Paulo, levantando-se a hipótese de que isso também influenciou o fim do ensino vocacional. Conclui-se que toda a história dessa experiência é permeada pelo espaço de memória traumatizado. As narrativas elaboradas tentam, em maior ou menor grau, responder às exigências de constituição de sentido histórico sem considerarem a especificidade do espaço de memória no qual está inserido o ensino vocacional, fazendo-se necessária a elaboração da perda por meio do luto e do enlutamento históricos.