A CONSTRUÇÃO E A AFIRMAÇÃO DE UM ESPAÇO DE MEMÓRIA: JOÃO DAMASCENO E OS DEBATES DA ICONOCLASTIA (730-843)
Iconoclastia; Ícone; Espaço de Memória; Memória Cultural; João Damasceno.
A presente dissertação analisa os três tratados do monge João Damasceno (c. 675 - c. 750) a partir da teoria de espaço de memória e memória cultural dos intelectuais alemães Aleida Assmann (2011) e Jan Assmann (1988; 2008). Neste processo, para conseguir construir uma relação entre os textos do monge sírio e os conceitos, notou-se uma lacuna historiográfica sobre o papel da memória na fonte analisada. Com isso, foi verificado que o debate acerca da memória nos tratados de Damasceno está em volta do ícone, um elemento imagético fundamental na liturgia cristã. A relevância das imagens santas também está atrelada a sua função pedagógica no cenário bizantino dos séculos VIII e IX, período que aconteceu a Iconoclastia. Sendo assim, pode-se conceber que a Iconoclastia e os tratados de João Damasceno estão intrinsecamente relacionados, pois o monge sírio escreveu os discursos para defender o uso de imagens da política de eliminação das imagens santas no Império Bizantino. Neste contexto, nota-se dois grupos existentes no movimento: os iconoclastas (contra os ícones) e os iconófilos (a favor dos ícones). Esses grupos entraram em conflitos constantes durante a época do iconoclasmo bizantino, disputando a legitimação da doutrina em volta dos ícones. Contudo, não foi apenas a teologia que os iconoclastas e iconófilos disputaram, pois a memória foi alvo de discussão. Com isso, nesta pesquisa, procura-se analisar o ícone enquanto um espaço de memória, buscando interpretar as disputas pelas imagens santas como um estimulador para consolidação da presença dessas representações ou a modificação da memória cultural. Este é o problema da pesquisa, que possui o objetivo principal de verificar o
ícone enquanto um memorial, que pode ser entendido como um espaço de memória com base na teoria do casal Assmann. Logo após, para analisar o propósito basilar do estudo, volta-se para as questões metodológicas. Dessa forma, por meio da interpretação de Hans Belting (2009), compreende-se os ícones como parte da sociedade bizantina e, por meio da análise de Laurence Bardin (2011) pode-se compreender o motivo de palavras ou assuntos mais recorrentes nos tratados. Com o auxílio metodológico de Belting (2009) e Bardin (2011), é possível examinar os tratados estudados. Através disso, consegue-se investigar também o modo operante da historiografia bizantina para examinar a Iconoclastia. Para uma relação mais profunda entre a fonte estudada e a produção histórica, verificou-se como os escritos de João Damasceno influenciaram demasiadamente diferentes campos, ajudando a propagar a memória dos iconófilos. Em termos gerais, esta dissertação tem o propósito de examinar os tratados de João Damasceno, com o intuito de verificar se o problema da pesquisa e objetivo principal tem pertinência, ao utilizar os conceitos de espaço de memória e memória cultural do casal Assmann para compreender a problemática do ícone como um memorial.