“VIAJAR À ÁFRICA E PERCORRER PROVÍNCIAS PORTUGUESAS DO ULTRAMAR”: LUÍS DA CÂMARA CASCUDO E A CONSTRUÇÃO DE UM ITINERÁRIO LUSO-TROPICALISTA (1962-1967)
Câmara Cascudo; África Portuguesa; Luso-Tropicalismo.
Esta dissertação investiga a construção de um itinerário político-cultural luso-tropicalista do intelectual norte-rio-grandense Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), a partir de sua viagem à África, realizada em 1963, quando deixou o Brasil para estudar as raízes da alimentação brasileira naquele continente. Consideramos que essa trajetória teve início em 1962, quando Assis Chateaubriand lhe dirigiu um convite para desenvolver uma pesquisa etnográfica para a Sociedade de Estudos Históricos Dom Pedro II, e se encerrou em 1967, com a publicação da última obra resultante desse projeto. A viagem reforçou interesses intelectuais que atravessaram sua atuação como folclorista, conferindo-lhe um papel de mediador político e resultando em uma produção científica que dialoga com a política colonial portuguesa. Assim, o objetivo central deste trabalho é problematizar a viagem de Câmara Cascudo à chamada África portuguesa, buscando compreender como sua produção intelectual foi construída de modo a fortalecer a ideia do luso-tropicalismo, que apresentava Portugal como um império civilizador das colônias africanas. O arcabouço teórico que sustenta nossas reflexões apoia-se em autores como Jean-François Sirinelli (2003), que discute o conceito de intelectual; Angela Castro Gomes e Patricia Santos Hansen (2016), que exploram a noção de mediador político e cultural; Michel Foucault (2013), que me permitiu mobilizar uma ideia de espaço relacional; e Claudia Castelo (1999), cuja obra ilumina as relações entre luso-tropicalismo e práticas intelectuais. Como procedimentos metodológicos, examinamos fontes periódicas da época: artigos, entrevistas e reportagens sobre a viagem, além de correspondências entre Cascudo e outros intelectuais, telegramas enviados ao governo português e registros da missão, como anotações, documentário e fotografias. Também analisamos a produção bibliográfica do autor relacionada ao tema, em especial A Cozinha Africana no Brasil (1964), Made in Africa (1965) e História da Alimentação no Brasil (1967), obras que resultaram diretamente dessa experiência. Todo esse material foi investigado à luz da análise do discurso, conforme Michel Foucault (2004), com o intuito de compreender como a ideia luso-tropicalista foi sendo elaborada no pensamento de Luís da Câmara Cascudo a partir de sua viagem à África portuguesa.