Correspondência de guerra: as Cartas Tupi e a mobilização política de interesses indígenas no contexto do conflito luso-neerlandês na capitania geral de Pernambuco (c. 1624-1656)
Cartas tupi; História indígena; Conflito luso-neerlandês; Povo Potiguara
Esta pesquisa investiga a mobilização política de interesses indígenas no contexto do conflito luso-neerlandês na capitania geral de Pernambuco (c. 1624-1656), tomando como eixo central a documentação produzida por indígenas em meio a esse contexto, a exemplo das Cartas tupis (1645). Ao privilegiar documentos produzidos por indígenas, alguns em tupi, a tese analisa a escrita como prática política situada, por meio da qual seus autores formularam argumentos, definiram interlocutores e buscaram intervir ativamente nos desdobramentos da guerra. O problema que orienta o trabalho consiste em compreender como lideranças Potiguara, inseridas em um cenário conflituoso e de fragmentação interna do grupo, elaboraram e expressaram interesses políticos próprios, mobilizando repertórios indígenas e categorias jurídico-políticas coloniais na construção de alianças com portugueses e neerlandeses. Parte-se da hipótese de que tais atuações não devem ser interpretadas como derivação passiva de políticas metropolitanas ou da ação missionária, mas como elementos constitutivos dos rumos do conflito e da própria configuração territorial da América portuguesa. Desloca-se, assim, a análise das alianças indígenas da dicotomia adesão/resistência para o exame das estratégias de mediação, negociação e persuasão engendradas em meio à consolidação do sistema colonial. O corpus documental articula, além das fontes indígenas, documentação da burocracia portuguesa, legislação indigenista, crônicas e registros administrativos neerlandeses, permitindo leitura cruzada entre diferentes regimes discursivos e de forma atenta às conexões atlânticas que enquadram o conflito e as dinâmicas locais. Mais do que reconstituir episódios militares, a tese investiga a mobilização de categorias como lealdade, serviço, justiça, mercê, terra e coletividade na produção de discursos políticos indígenas. Organizada em três partes, a pesquisa examina, inicialmente, as lideranças Potiguara alinhadas à Coroa portuguesa e os antecedentes históricos dessa aliança; em seguida, analisa os grupos que se vincularam aos neerlandeses e os rearranjos políticos decorrentes dessa escolha; por fim, identifica convergências discursivas entre posições opostas, evidenciando a escrita indígena como espaço de formulação política. Ao fazê-lo, sustenta que a participação indígena foi elemento estruturante, e não periférico, na definição dos rumos da espacialidade e territorialidade da colonização