O FOGO COMO UM PROBLEMA DO ESPAÇO URBANO DE NATAL/RN: MODERNIDADE, RISCOS E DESIGUALDADES (1850-1950)
fogo; incêndios urbanos; modernidade; Natal/RN; risco; vulnerabilidade urbana; Corpo de Bombeiros.
Esta tese investiga o fogo como um problema do espaço urbano da cidade de Natal/RN, entre 1850 e 1950, articulando os incêndios às dinâmicas de modernização, vulnerabilidade, desigualdade espacial e construção institucional. Ao analisar fontes documentais, jornalísticas, iconográficas e administrativas, incluindo relatórios provinciais, atas legislativas, boletins internos, planos urbanísticos e periódicos da imprensa potiguar, a pesquisa busca demonstrar que os incêndios funcionaram como eventos disruptivos, mas também reveladores das fragilidades materiais, como uso da palha, taipa e madeira em construções de habitações e prédios privados e públicos, assim como simbólicas da capital potiguar, uma vez que como ameaça o “projeto de modernidade” proposto pelas elites. Longe de constituírem episódios isolados, os sinistros expõem uma cidade marcada por estruturas inflamáveis, precariedade institucional, ausência de políticas públicas consistentes e intervenções modernizadoras seletivas. A tese examina, ainda, como a formação da Seção de Bombeiros (1917-1919) emerge não apenas como resposta técnica ao risco, mas como elemento simbólico vinculado ao projeto de produzir uma cidade moderna, segura e disciplinada, embora restrita a determinados grupos e espaços urbanos. A análise dialoga com referenciais teóricos sobre risco, modernidade, cultura urbana e história do fogo, mobilizando autores como Ulrich Beck, David Harvey, Johan Goudsblom e Stephen Pyne. Ao inserir Natal em um debate mais amplo sobre incêndios urbanos, esta pesquisa demonstra que o fogo constituiu um marcador estruturante das experiências urbanas, revelando tensões entre progresso e precariedade, entre a promessa de modernidade e a permanência das desigualdades sociais. Conclui-se que compreender o fogo e os incêndios como categorias analíticas e objetos de pesquisa da História, possibilitou interpretar a formação da cidade, de instituições e de práticas de governo que moldaram Natal entre o século XIX e meados do século XX.