ENTRE A ESPADA FLAMEJANTE E A CRUZ APOCALÍPTICA: Redes de Sociabilidades e Política Internacional nos Crucíferos Clementinos (1968-2023)
El Palmar de Troya, Crucíferos Clementinos, Redes de Sociabilidades, Política Internacional.
Na História Eclesiástica Espanhola, seu mais notório grupo cismático, estruturou-se na segunda metade do século XX sob a designação de Crucíferos Clementinos, tecendo dilatadas redes de sociabilidades e uma política internacional orientada à criação de uma “Igreja-Pátria” hispânica. Tal empreendimento, de inequívoca inspiração ideológica, buscou simultaneamente a reatualização de postulados do passado franquista e a sacralização de personagens da história espanhola ultramarina, inserindo-se em um processo de sacralização simbólica da identidade nacional. Em sua totalidade, o movimento dos Crucíferos configurou-se como dissidência radical do Catolicismo Romano, surgida em 1975, no povoado andaluz de El Palmar de Troya, como Ordem religiosa carmelita. Anos mais tarde, em 1978, seu fundador, Clemente Domínguez Gómez, que era cego e autoproclamado receptor de mensagens celestiais, arrogou para si a condição de legítimo papa católico, assumindo o nome de Gregório XVII. A partir desse ato inaugural, o grupo dos Clementinos, com a denominação de Igreja Palmariana, passou a difundir um corpus documental próprio, destinado a normatizar sua doutrina e sua liturgia, consolidando uma ruptura absoluta com a tradição católica de Roma. Mediante o estabelecimento de redes de sociabilidades perpetradas em suas narrativas, observou-se a construção de um espaço sagrado ancorado em pressupostos do ideário tradicionalista, com linguagem apocalíptica e catastrófica, porém demarcado por profundas inflexões e inovações, culminando na formulação de um sistema religioso híbrido. Entre os elementos que singularizaram tal edificação, a instituição de um rito sumário para a celebração da missa e a canonização de figuras historicamente controversas, compuseram um complexo projeto de espacialização do sagrado. À luz desses fatores, evidenciou-se a consolidação de um catolicismo alternativo, enquanto Ordem Crucífera dos Últimos Tempos, como religião plenamente autônoma e desvinculada da Igreja Católica.