Carolina Maria de Jesus; Quarto de despejo; espaço de experiência; representação; escrevivência.
A partir da obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960), de Carolina Maria de Jesus, e de fontes complementares, como edições das revistas O Cruzeiro, Revista Manchete e periódicos da década de 1950, esta dissertação analisa a construção do diário como espaço de experiência. O recorte temporal adotado abrange o período de 1955 a 1960, sendo 1955 o ano dos primeiros registros do livro da autora e 1960 o ano de sua publicação, enquanto o recorte espacial concentra-se na favela do Canindé, na cidade de São Paulo. A escrita de Carolina configura uma representação singular do ambiente marginalizado, atravessada pela sensorialidade, pela memória e pela vivência cotidiana, ao mesmo tempo em que sua imagem pública foi moldada pela imprensa do período. O objetivo central da pesquisa consiste em investigar de que modo os diários de Carolina Maria de Jesus elaboram um espaço de existência, revelando relações sociais e percepções sensoriais do ambiente, bem como sua dimensão mediada, expressa nos processos de pré-produção, edição e publicação de Quarto de Despejo. A pesquisa ancora-se na metodologia da Sociologia da Literatura, proposta por Pierre Bourdieu, privilegiando a articulação entre texto, contexto e trajetória social, de modo a compreender a materialização da obra e da figura de Carolina no espaço público. O referencial teórico mobilizado contempla, ainda: o conceito de escrevivência, formulado por Conceição Evaristo, como chave de leitura para a fusão entre vivência e produção literária; as contribuições de Roger Chartier e Stuart Hall acerca da representação, voltadas para problematizar as formas de apropriação, circulação e reelaboração da imagem de Carolina; as reflexões de Yi-Fu Tuan sobre a relação sensorial com a realidade vivida e a inscrição da autora em seu cotidiano; e as ideias de Michel de Certeau, fundamentais para compreender como as múltiplas experiências da autora no ambiente conferem-lhe densidade existencial e simbólica. Por meio da análise integrada desses elementos, a dissertação demonstra como Carolina Maria de Jesus, por meio da escrita diarística, construiu uma representação potente e complexa de sua experiência concreta, ao mesmo tempo em que esse espaço de experiência foi atravessado por mediações editoriais e midiáticas que impactaram sua recepção pública e literária.