“ONDE ESTÁ AGORA AQUELA IGREJINHA?” RESSONÂNCIAS E ADERÊNCIAS DA CULTURA POLÍTICA DE EXTREMA DIREITA NOS CIBERESPAÇOS EVANGÉLICOS ASSEMBLEIANOS NO TEMPO PRESENTE
Assembleia de Deus, Conservadorismo, Cultura Política de Extrema Direita, Ciberespaço, Bolsonarismo
O objetivo deste estudo é analisar o processo de construção de uma cultura política de extrema direita no seio das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus (AD), notadamente as que estão vinculadas à CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), o seu maior ramo. Desde um conservadorismo militante que, entre outros aspectos, declarou apoio à ditadura militar (1964-1985) e posteriormente, o processo de aderência de alguns de seus quadros à onda global da extrema direita, da passagem da segunda para a terceira década do século XXI. Neste levantamento, manejei fontes da literatura oficial da AD, mormente o jornal Mensageiro da Paz e a revista Lições Bíblicas, as quais possuem marcadores da posição editorial, que no tempo presente, deu ressonância aos mesmos temas, pautas e interesses políticos da extrema direita brasileira. Neste sentido, aponto que algumas tendências e preocupações da cultura comunicativa assembleiana dialogaram com predileções comuns ao mainstream da extrema direita, entre 2016 e 2022. Demonstro sinais de uma aderência por afinidade que contribuiu para a construção de uma cultura política reacionária identificada ideologicamente com a ascensão de Jair Messias Bolsonaro. Com estudos aportados nas dimensões teóricas dos campos político e religioso de Pierre Bourdieu (1981, 2004), práticas de espaço de Michel de Certeau (1994), referenciados também na pesquisa sobre a relação entre protestantismo e política, de Paul Freston (1993), discuto como a manutenção das características sectárias institucionalizadas pela AD foram cooptadas por lideranças para tensionar e fabricar uma identificação com o conservadorismo da extrema direita brasileira. Apresento a invenção de um “sebastianismo” bolsonarista, um ciberativismo praticado pelo pastor assembleiano Elinaldo Renovato de Lima, que respondeu a dois processos judiciais por ter usado o ciberespaço para disseminar fatos inverídicos (fake news) no contexto da pandemia de Covid-19 e no curso campanha eleitoral de 2022. Estes casos tiveram ampla repercussão entre os assembleianos de todo o país, observada a relevância do líder neste segmento religioso. A pesquisa dispõe ao debate acadêmico, entre outras preocupações: o desenvolvimento de uma cultura política preferencial incentivada por líderes religiosos e suas interferências nos processos democráticos; o uso partidário da igreja AD e como isso pode prejudicar na apropriação adequada do direito à liberdade religiosa, e; como este abuso de poder pode ameaçar o exercício da cidadania.