Influência do tipo de disfunção temporomandibular
crônica no zumbido, incapacidade orofacial, cervical e qualidade de vida: um
estudo transversal
Zumbido Somatossensorial, Dor orofacial, Avaliação de
sintomas, estudo observacional.
Introdução: a Disfunção Temporomandibular crônica (DTM) compreende um
conjunto de condições que acometem a articulação temporomandibular e os
músculos mastigatórios, podendo ocasionar dor orofacial, limitação funcional
mandibular e cefaleia, sendo classificada em diferentes tipos. Associados a
essas manifestações, também podem estar associados sintomas otológicos,
sendo o zumbido o mais frequente. O zumbido somatossensorial (ZSS) é a
percepção de som na ausência de estímulo acústico externo, muitas vezes
relacionado a alterações musculoesqueléticas e neurossensoriais. Evidências
sugerem que a DTM pode influenciar o zumbido em decorrência da
interconexão entre os sistemas somatossensorial e auditivo, com potencial
repercussão negativa na qualidade de vida. Objetivo: verificar se existem
diferenças no incômodo e impacto do zumbido, na dor e incapacidade orofacial
e cervical e na qualidade de vida em indivíduos de diferentes tipos de DTM
associada ao zumbido. Métodos: trata-se de um estudo transversal, no qual
foram incluídos indivíduos de ambos os sexos, com idade entre 18 e 65 anos,
diagnosticados com ZSS e DTM. Os participantes, foram divididos em três
grupos: DTM mialgia (MIA), DTM artralgia (ART) e DTM mista (MIS), quando
há mais de um tipo de DTM associada. A identificação da DTM foi realizada
por meio do questionário Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders
(DC/TMD), enquanto a influência do sistema somatossensorial na origem do
zumbido foi determinada pelo Checklist dos Critérios Diagnósticos de Zumbido
Somatossensorial (CD/ZSS). O volume e o incômodo do zumbido, bem como
a intensidade da dor cervical, orofacial e cefaleia, foram mensurados pela
Numeric Rating Scale (NRS). O impacto do zumbido foi analisado pelo Tinnitus
Handicap Inventory (THI), a incapacidade cervical pelo Índice de Incapacidade
Cervical (NDI) e a incapacidade mandibular e dor orofacial pelo Inventário de
Dor Orofacial e Incapacidade (IDOI). A qualidade de vida foi mensurada pela
versão brasileira abreviada do The World Health Organization Quality of Life
(WHOQOL – BREF). Resultados preliminares: Foram avaliados 159
indivíduos, dos quais 70 apresentaram DTM e ZSS associados e foram
incluídos no estudo, sendo 11 do grupo articular, 17 do grupo muscular e 42
do grupo misto. Do total, 71,5% do sexo feminino, com idade mediana de 32,5
(25-40,2) anos. Não foram observadas diferenças significativas entre os
grupos em relação ao incômodo nas últimas 24h (p=0,121) e nos últimos 7 dias
(p=0,734), nem quanto à severidade do zumbido nas últimas 24 horas (p =
0,129) e últimos sete dias (p = 0,741). Da mesma forma, o THI não evidenciou
diferenças significativas entre os grupos, tanto no escore total (p = 0,942)
quanto nos domínios (p > 0,05). Em relação ao IDOI, o grupo DTM mista
apresentou escores significativamente mais elevados em comparação ao
grupo DTM artralgia no domínio dor (p = 0,003) e ao grupo DTM mialgia no
domínio comorbidades (p = 0,022); o escore total diferiu significativamente
entre os subgrupos (p = 0,008), com valores mais elevados no grupo misto
Para a classificação total, observou-se predomínio de incapacidade severa em
todos os grupos, especialmente no grupo MIS (76,9%), embora sem diferença
estatisticamente significativa entre as categorias (p = 0,340). No NDI,
identificou-se diferença estatisticamente significativa na incapacidade cervical
entre os grupos, tanto na classificação por níveis de incapacidade (p=0,004)
quanto no escore total (p<0,001). Quanto à cervicalgia, a intensidade nos
últimos sete dias diferiu entre os grupos (p = 0,032), com maior intensidade no grupo DTM mista. A avaliação da qualidade de vida não demonstrou diferenças
estatisticamente significativas entre os grupos no escore total (p=0,882) nem
entre os domínios. Considerações finais: Os resultados parciais deste estudo
sugerem que o tipo de DTM não exerceu influência significativa os desfechos
relacionados ao zumbido somatossensorial. Contudo, indivíduos com DTM
mista apresentaram maior frequência de classificação nos níveis “severo” e
“catastrófico” de impacto do zumbido. Os participantes com DTM mista
evidenciaram maiores níveis de incapacidade na maioria dos domínios do
IDOI. Embora a classificação global do IDOI não tenha diferido entre os
subtipos de DTM, indivíduos com DTM mista apresentaram maior frequência
de incapacidade moderada e severa, reforçando o maior impacto clínico
observado nesse subgrupo. Quanto a incapacidade cervical, houve diferença
tanto nos domínios, quanto no escore total no NDI entre os grupos, bem como
a intensidade da dor cervical nos últimos sete dias foi maior no grupo DTM
mista. A percepção global de qualidade de vida não foi influenciada pelo
subtipo de DTM. Com a continuidade desse estudo, espera-se que os achados
possam subsidiar a elaboração de diretrizes clínicas mais precisas e contribuir
para o aprimoramento da abordagem diagnóstica e terapêutica por parte dos
profissionais de saúde no manejo de pacientes com essas manifestações
clínicas complexas e multifatoriais.