USOS DO TERRITÓRIO E COOPERATIVAS AGRÍCOLAS NO BRASIL: DA VERTENTE TRADICIONAL-EMPRESARIAL À SOLIDÁRIA
Cooperativismo; Cooperativas agrícolas; Território usado; Degeneração cooperativa; Brasil.
Esta tese analisa o cooperativismo agrícola brasileiro a partir dos usos do território que se gestam pelas ações das cooperativas de vertente tradicional-empresarial e solidária. Parte-se do entendimento de que o cooperativismo não pode ser concebido de modo restrito a uma mera forma de organização da produção, tampouco apreendido apenas por indicadores quantitativos, número de empreendimentos ou sua localização, uma vez que se constitui como fenômeno socioespacial, historicamente produzido, institucionalizado e tensionado pelas relações entre o Estado, o mercado e o trabalho. O objetivo geral é o de compreender o uso do território pelo cooperativismo agrícola brasileiro a partir das ações estabelecidas e gestadas pelas cooperativas de vertente solidária e tradicional-empresarial. No aspecto teórico-metodológico, a pesquisa ancora-se na compreensão do espaço enquanto totalidade e na categoria analítica território usado, articulando ainda os pares dialéticos abrigo/recurso e verticalidades/horizontalidades. Com relação a abordagem do objeto, considera-se imprescindível a multiescalaridade e multitemporalidade, combinando dados secundários das bases da OCB, CADSOL e UNICAFES, além de trabalho de campo com entrevistas semiestruturadas e observação não-participante em dez cooperativas distribuídas pelas cinco regiões do país. A análise reconstrói o histórico de formação do cooperativismo no país, analisa o papel do Estado em sua institucionalização e em sua funcionalização às estratégias de modernização agrícola, discute a heterogeneidade interna do movimento e aprofunda a tese da degeneração cooperativa como processo histórico-geográfico contraditório. O trabalho parte da tese de que, embora o cooperativismo tenha emergido historicamente como alternativa contra-hegemônica voltada à emancipação dos trabalhadores, consolidou-se no Brasil, sobretudo mediante a ação do Estado, como ferramenta funcional à lógica do capital, orientada por estratégias insercionais-competitivas e pela mitigação de tensões no campo. Esse processo favoreceu o afastamento progressivo dos princípios cooperativistas, produzindo isomorfismo organizacional, racionalidades empresariais e formas de degeneração. Ao mesmo tempo, aponta-se que experiências vinculadas à Economia Solidária preservam, ainda que de forma parcial e contraditória, práticas autogestionárias, solidárias e territorialmente enraizadas, nas quais o território tende a ser mobilizado como abrigo e recurso. Desse modo, a tese contribui para a compreensão geográfica do cooperativismo agrícola brasileiro ao evidenciar que suas diferentes vertentes produzem usos territorialmente desiguais, socialmente contraditórios e politicamente disputados.