Terapia antiofídica no Brasil: eficácia, práticas tradicionais e o acesso ao soro mediado por tecnologias digitais.
Ofidismo; soro antiveneno; práticas pré-hospitalares; geoprocessamento; plataforma web.
O envenenamento por serpentes é uma Doença Tropical Negligenciada (DTN) responsável por significativa morbimortalidade em diversas regiões do mundo, especialmente entre populações vulneráveis que vivem em países tropicais e subtropicais de baixa renda. No Brasil, embora o tratamento com soro antiofídico esteja disponível no Sistema Único de Saúde, barreiras geográficas, estruturais e informacionais ainda podem dificultar o acesso oportuno ao atendimento especializado. Dessa forma, investigamos diferentes dimensões relacionadas ao manejo dos acidentes ofídicos no país por meio de uma abordagem integrativa que combina dados biológicos, socioculturais e geoespaciais. Primeiro, realizamos uma revisão da literatura científica para analisar a eficácia pré-clínica do soro antiofídico brasileiro e as práticas tradicionais de primeiros socorros utilizadas em casos de envenenamento. Em seguida, registros administrativos públicos foram sistematizados para a construção de um banco de dados georreferenciado contendo informações sobre unidades de saúde que ofertam soroterapia no Brasil. A partir dessa base de dados, desenvolvemos e publicamos a plataforma digital RODA (Road to Antivenom), um sistema web interativo que integra dados geoespaciais validados para 1,944 centros de saúde nas cinco regiões brasileiras, e indicadores epidemiológicos com o objetivo de facilitar a identificação de unidades aptas ao manejo clínico dos acidentes ofídicos. Adicionalmente, análises espaciais revelaram discrepâncias regionais entre densidade populacional e territorial das unidades de saúde, com o Norte apresentando maior densidade por população (2,20/100.000 habitantes), porém menor por área (0,99/10.000 km²), enquanto Sul e Sudeste exibiram o padrão inverso, com menores valores por população (1,29 e 0,53/100.000) e maiores por área (6,67 e 4,86/10.000 km²), respectivamente, revelando assim uma notável assimetria regional na rede de distribuição de soro antiofídico brasileira.