MICROEVOLUÇÃO DA RESISTÊNCIA A ANTIFÚNGICOS EM Candida (Candidozyma) auris SELECIONADA PELA EXPOSIÇÃO A FUNGICIDA
Tebuconazol; fluconazol; agroquímicos; resistência cruzada; uma só saúde.
Candida (Candidozyma) auris é uma levedura patogênica emergente frequentemente associada a surtos hospitalares e com altas taxas de resistência aos antifúngicos. A resistência ao fluconazol (FCZ) é a mais prevalente, alcançando até 77% dos isolados. Um dos principais desafios relacionados a essa espécie é entender como seus mecanismos de resistência evoluíram. Uma hipótese é que o uso extensivo de azóis agrícolas no ambiente, pode estar selecionando isolados resistentes que posteriormente colonizam/infectam humanos. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo investigar se a exposição ao fungicida azólico tebuconazol (TBZ) poderia selecionar resistência cruzada ao FCZ, além de avaliar o papel da temperatura no processo adaptativo. Inicialmente, foram realizados testes de determinação da concentração inibitória mínima (CIM) para FCZ e ao TBZ de 39 isolados de C. auris, de acordo com as diretrizes do CLSI (2021). Os resultados revelaram que 41% (16/39) dos isolados são resistentes ao FCZ, enquanto 38,5% (15/39) dos isolados apresentaram sensibilidade reduzida ao TBZ. Notavelmente, 94% (15/16) dos isolados resistentes ao FCZ também exibiram valores elevados de CIM para TBZ, isso significa que todos os isolados com sensibilidade reduzida ao TBZ foram resistentes ao FCZ, reforçando a hipótese inicial. Já a sensibilidade a outros azóis, itraconazol e o posaconazol, foi mantida em todos os isolados. Para aprofundar essa relação, foram conduzidos experimentos de microevolução usando TBZ com três isolados suscetíveis aos azóis, provenientes de diferentes regiões geográficas. Duas populações de células de cada isolado foram expostas a concentrações fixas de TBZ (16× CIM) por subcultivos sucessivos à 30 °C e 37 °C. Essa exposição seriada levou ao aumento progressivo ou abrupto das CIMs tanto para o TBZ quanto para o FCZ, sobretudo a 37ºC. A estabilidade desse fenótipo foi avaliada por passagens subsequentes em meio isento do fungicida, revelando resistência cruzada transitória em todos os isolados. Adicionalmente, experimentos de microevolução com concentrações crescentes de TBZ (até 256 μg/mL) mostraram que algumas populações de células de dois isolados adquiriram resistência cruzada permanente. Em conjunto, os resultados demonstram que a exposição ao TBZ pode selecionar resistência estável ou transitória ao FCZ em C. auris, e que esse processo dependente da temperatura de incubação e da concentração do fungicida durante a exposição.