MICROEVOLUÇÃO DA RESISTÊNCIA A ANTIFÚNGICOS CLÍNICOS EM Candida (Candidozyma) auris INDUZIDA PELA EXPOSIÇÃO A FUNGICIDAS AMBIENTAIS
tebuconazol; fluconazol; agroquímicos; resistência cruzada; saúde única.
Candida (Candidozyma) auris é uma levedura patogênica emergente frequentemente associada a surtos hospitalares. Certos clados dentro da espécie apresentam altas taxas de resistência antifúngica e multirresistência, sendo a resistência ao fluconazol (FCZ) a mais prevalente, alcançando até 77% dos isolados. Um dos principais desafios relacionados a essa espécie é entender como seus mecanismos de resistência evoluíram. Uma hipótese é que o uso extensivo de azóis agrícolas no ambiente, pode estar selecionando isolados resistentes que posteriormente infectam humanos. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo investigar se a exposição ao azol agrícola tebuconazol (TBZ) poderia selecionar resistência cruzada ao FCZ, além de avaliar o papel da temperatura no processo adaptativo. Inicialmente, foram realizados testes de suscetibilidade ao FCZ e ao TBZ em trinta e nove isolados de C. auris, de acordo com as diretrizes do CLSI (2017). Os resultados revelaram resistência de 41% ao FCZ, enquanto 38,5% dos isolados apresentaram sensibilidade reduzida ao TBZ. Notavelmente, 94% (15/16) dos isolados resistentes ao FCZ também exibiram valores elevados de CIM para TBZ, indicando resistência cruzada em 38,5% dos casos. Todos os isolados com sensibilidade reduzida ao TBZ foram resistentes ao FCZ, reforçando a hipótese de que o uso ambiental de azóis pode contribuir para o surgimento de resistência clínica. Para aprofundar essa relação, foram conduzidos experimentos de adaptação com três isolados suscetíveis ao FCZ e ao TBZ, provenientes de diferentes regiões geográficas. Os isolados foram expostos, em duplicata, a concentrações fixas de TBZ (16× CIM) por passagens sucessivas, sob duas condições de temperatura (30 °C e 37 °C). Essa exposição seriada levou ao aumento progressivo das CIMs para o TBZ e, principalmente, para o FCZ, sobretudo a 37ºC, sugerindo que o estresse térmico intensifica a seleção de fenótipos resistentes. A estabilidade desse fenótipo foi avaliada por passagens subsequentes em meio isento do antifúngico, revelando resistência cruzada transitória em todos os isolados. Adicionalmente, experimentos com concentrações crescentes de TBZ (até 256 μg/mL) mostraram que alguns grupos de colônias adquiriram resistência cruzada permanente mesmo após a retirada da pressão seletiva. Em conjunto, os resultados demonstram que a exposição ao TBZ pode induzir resistência ao FCZ em C. auris, particularmente sob estresse térmico, evidenciando o papel do ambiente na seleção e na manutenção de isolados resistentes de importância clínica.