CICLO DE MELHORIA DA QUALIDADE EM UMA UNIDADE DE LABORATÓRIO DE ANÁLISES CLÍNICAS: UM ESTUDO QUASE-EXPERIMENTAL NA FASE PRÉ-ANALÍTICA
Palavras-chave: qualidade laboratorial;six sigma; indicadores de qualidade em assistência à saúde; Melhoria de Qualidade; melhoria contínua.
A qualidade no laboratório clínico constitui um dos pilares centrais da segurança do paciente e da efetividade diagnóstica, sendo a fase pré-analítica reconhecida como a mais vulnerável a falhas, responsável por até 70% dos erros laboratoriais. Este estudo teve como objetivo avaliar a qualidade dos serviços de um laboratório clínico hospitalar, identificando, analisando e reduzindo não conformidades na fase pré-analítica por meio de um ciclo de melhoria baseado no modelo Six Sigma e nas diretrizes SQUIRE 2.0. Trata-se de um estudo quase-experimental do tipo antes e depois, realizado entre novembro de 2023 e outubro de 2025, na Unidade de Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN), instituição referência em ensino e formação na área da saúde. Foram analisadas 111.869 amostras provenientes dos setores de bioquímica, hematologia e microbiologia, abrangendo as fases pré e pós-intervenção. As ações de melhoria foram estruturadas em três eixos — Educação, Organização e Estrutura, e Regulação Organizacional — e implementadas de forma colaborativa, envolvendo treinamentos, padronização de processos e elaboração de instrumentos normativos. Os indicadores de desempenho incluíram taxa de rejeição de amostras, Defeitos por Milhão de Oportunidades (DPMO) e valor Sigma. A ferramenta Diagrama de Pareto foi utilizada para priorizar as causas mais críticas de não conformidade. Os resultados evidenciaram redução das taxas de rejeição nos setores de bioquímica (de 0,70% para 0,59%) e hematologia (de 0,68% para 0,63%), com aumento dos níveis Sigma para 4,05 e 4,04, respectivamente, indicando melhoria de desempenho de “aceitável” para “bom”. No setor de microbiologia, as taxas de contaminação de hemoculturas mantiveram-se estáveis (5,03% para 5,29%), sugerindo influência de fatores externos à unidade. O Diagrama de Pareto demonstrou que dois tipos de falhas, hemólise e coagulação, concentraram mais de 80% das não conformidades, direcionando o foco das intervenções educativas e procedimentais. Entre as limitações, destaca-se o fato de o estudo ter sido conduzido em um único hospital universitário, cuja dinâmica de ensino e formação de estudantes pode impactar a padronização das práticas e a estabilidade dos indicadores de qualidade. Além disso, fatores externos e operacionais — como a variabilidade nas técnicas de coleta e diferenças de experiência entre os profissionais — podem ter influenciado os resultados, especialmente nas taxas de contaminação de hemoculturas. Recomenda-se que estudos futuros ampliem o escopo da investigação para múltiplos hospitais, incorporem sistemas automatizados de rastreabilidade e avaliem o custo-efetividade das intervenções, além de monitorar o impacto pedagógico no desenvolvimento de competências técnicas e comportamentais. Conclui-se que a integração de estratégias educativas, estruturais e regulatórias, apoiadas em ferramentas quantitativas de gestão, constitui um caminho efetivo para a melhoria contínua e sustentável da qualidade pré-analítica em laboratórios clínicos.