NARRATIVAS VIVAS: TRADIÇÃO ORAL E LETRAMENTO LITERÁRIO NO CHÃO DE UMA ESCOLA QUILOMBOLA
Tradição oral. Narrativas. Ensino. Identidade. Quilombola.
A oralidade, desenvolvida naturalmente desde a primeira idade, é um importante elemento de preservação da identidade cultural nas comunidades quilombolas, mostrando sua ligação com o letramento literário no chão da sala de aula. Este trabalho partiu do pressuposto de que a fala e a cultura oral são essenciais para a transmissão dos saberes populares, valores, crenças e narrativas que atravessam gerações. Assim, para promover a formação de leitor reflexivo, a pesquisa valorizou a bagagem cultural do estudante, desenvolvendo atividades que integrassem a tradição oral na literatura. Diante disso, a metodologia utilizada foi a pesquisa-ação de vertente etnográfica, realizada com alunos do 9º ano da Escola Municipal Professor José Tito Júnior (CERU), localizada na comunidade quilombola Coqueiros, em Ceará-Mirim. A justificativa deste trabalho consistiu em ressaltar a valorização da identidade cultural desse grupo social, preservando a tradição oral, promovendo o letramento de forma significativa e contextualizada contribuindo para o desenvolvimento estudantil - enquanto leitor reflexivo - zelando pela sua identidade sociocultural. Assim, o objetivo geral foi contribuir para o reconhecimento e a preservação da cultura e da tradição oral negra dessa coletividade, inserindo tais práticas no desenvolvimento do letramento literário, a fim de reforçar a herança cultural e formar leitores críticos. A fim de atingir os objetivos propostos deste trabalho, adotou-se como embasamento teórico a concepção de leitor reflexivo, segundo Rouxel (2012), bem como a função social e a pertinência da literatura, conforme Cândido (2004), Jouve (2012) e Compagnon (2009), além das reflexões de Todorov (2010). No tocante à cultura, fundamentamo-nos em Bosi (1987, 1992, 2002) e Certeau (2005). No que concerne à literatura oral e suas principais características, recorreremos a Cascudo (2006). No âmbito da poesia oral, consideramos os aportes de Zumthor (1997) e Andrade (1971), e, no que diz respeito à cultura e à tradição oral, retomamos Zumthor (1993). Sob a ótica da identidade, utilizamos Castells (2018), enquanto a perspectiva da literatura africana, foi analisada a partir de Leite (2012). Por fim, no contexto de leitura e letramento literário, baseamo-nos em Cosson (2022; 2023). Em síntese, as ações desenvolvidas ao longo das sequências didáticas contribuíram de forma significativa e proporcionaram uma experiência transformadora para os discentes da escola pública, em especial para aqueles da comunidade quilombola Coqueiros. Mais do que ampliar o repertório cultural, essas atividades promoveram o reconhecimento da tradição oral como patrimônio imaterial. Esse processo de ensino-aprendizagem possibilitou aos participantes a percepção de pertencimento ao seu lugar na história e na memória da comunidade, representando uma oportunidade de aprendizado e reflexão também para a docente, consolidando a importância do trabalho coletivo voltado à preservação da memória e da identidade cultural.