Travessias Maternas: compreensões fenomenológicas sobre o ser-mãe de pessoas transgênero.
Transição de gênero; Pesquisa fenomenológica hermenêutica.
A transição de gênero, embora não sendo um fenômeno recente, ainda é considerada tabu. No Brasil, o percentual de pessoas transgênero corresponde a cerca de 2% da população, o que equivale a, aproximadamente, três milhões de pessoas. Trata-se de um fenômeno complexo, com implicações não somente para as pessoas que não se identificam com o gênero designado ao nascer, mas que afeta também familiares próximos, sobretudo as mães. Porém, é um fenômeno ainda pouco estudado, assim como seus impactos na família. Nesse sentido, compreende-se que olhar para essas vivências significa contribuir para o preenchimento uma lacuna existente. A presente pesquisa está ancorada na perspectiva fenomenológica hermenêutica, tendo como objetivo compreender os sentidos de ser mãe de um filho/a/e transgênero. O instrumento de pesquisa utilizado foi a entrevista narrativa, realizada com três mães cujos filhos/as/es se identificam como pessoa transgênero, além do diário de afetações, instrumento de registro dos afetos e percepções da pesquisadora suscitados a partir do encontro com as protagonistas. A análise se deu à luz do círculo hermenêutico heideggeriano, adaptado para a pesquisa em Psicologia. A partir dos resultados da pesquisa, percebemos como a concepção binária de gênero presente no nosso horizonte histórico influencia diretamente os modos de exercer a maternidade. As mães protagonistas deste estudo precisaram romper com os sentidos sedimentados de mundo, que norteavam seus modos de ser-mãe, para se abrirem à existência enquanto transitoriedade de seus filhos/as/es. Nesse percurso, que denominamos travessia, diversos afetos foram desvelados, como a vivência da angústia, da solidão e da culpa.