TRABALHANDO DENTRO DA PRISÃO: PREVALÊNCIA DE DOENÇAS CRÔNICAS E SEUS ENFRENTAMENTOS EM TRABALHADORES E TRABALHADORAS EM SITUAÇÃO DE PRIVAÇÃO DE LIBERDADE NO RIO GRANDE DO NORTE
Palavras-chave: Pessoas privadas de liberdade. Saúde coletiva. Doenças crônicas. Saúde prisional. Trabalhadores.
Objetivo: Analisar a prevalência de doenças crônicas entre trabalhadores e trabalhadoras em situação de privação de liberdade em unidades prisionais do Estado do Rio Grande do Norte, caracterizando o perfil sociodemográfico e ocupacional dessa população e o contexto de enfrentamento ao quadro de adoecimento que os acometem. Método: Estudo observacional epidemiológico do tipo transversal, realizado em quatro unidades prisionais do Rio Grande do Norte: Complexo Penal João Chaves (unidade feminina), Penitenciária Estadual de Alcaçuz, Penitenciária Estadual de Parnamirim e Cadeia Pública de Ceará Mirim. Participaram 118 pessoas privadas de liberdade que exerciam atividades laborais institucionalizadas no período da coleta. Os dados foram produzidos por meio de questionário semiestruturado, construído especificamente para a pesquisa, organizado em quatro blocos temáticos: (I) caracterização pessoal e profissional; (II) caracterização das doenças crônicas por sistemas orgânicos; (III) impacto na qualidade de vida; e (IV) rede de apoio e suporte. A coleta ocorreu entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, de forma presencial, no período diurno. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas e relativas, medidas de tendência central e de dispersão, e apresentados em tabelas e gráficos. Resultados: A amostra foi composta predominantemente por pessoas do sexo masculino (n = 91,5%). A faixa etária mais frequente foi de 30 a 49 anos (53,4%). As atividades laborais mais exercidas foram manutenção (23,7%), oficina de costura (16,1%) e cozinha (10,2%). Quanto aos antecedentes clínicos e fatores de risco, 75,2% referiram uso de álcool, 36,8% uso de substâncias ilícitas antes do encarceramento e 61,5% relataram histórico familiar de doenças crônicas. A prevalência de ao menos uma doença crônica foi de 61,0%. Os sistemas com maior prevalência foram o respiratório (29,7%) e o cardiovascular (28,0%). Entre as condições específicas mais prevalentes, destacaram-se a hipertensão arterial (25,4%), o histórico de Covid-19 (11,0%) e o histórico de tuberculose (9,3%). Quanto ao uso de medicamentos, 42,7% dos participantes faziam uso contínuo de algum medicamento ou terapia. Apesar da alta prevalência de doenças crônicas, 80,3% dos participantes consideravam-se saudáveis. Conclusão: Os achados evidenciam elevada carga de doenças crônicas entre trabalhadores e trabalhadoras privados(as) de liberdade no Rio Grande do Norte, com destaque para as condições respiratórias e cardiovasculares, em um cenário marcado por histórico expressivo de uso de substâncias psicoativas, baixa escolaridade e acesso limitado a serviços de saúde antes e durante o encarceramento. A coexistência de multimorbidade em mais de um terço da amostra, associada ao paradoxo da autopercepção positiva de saúde, aponta para a necessidade de estratégias de vigilância, rastreamento e cuidado longitudinal específicas para essa população. Os dados reforçam a urgência de fortalecer a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade e de incorporar a dimensão do trabalho e seus riscos nas ações de saúde prisional, reconhecendo os trabalhadores e as trabalhadoras em situação de privação de liberdade como sujeitos com necessidades de saúde próprias e direitos garantidos.