MARCADORES SOCIAIS DA DIFERENÇA NO CUIDADO À PESSOA COM DIABETES NO BRASIL: UMA ABORDAGEM INTERSECCIONAL DE GÊNERO, RAÇA E CONDIÇÃO SOCIOECONÔMICA
Diabetes mellitus; Interseccionalidade; Acesso aos serviços de saúde.
Introdução: O diabetes mellitus é um importante problema de saúde pública global, com elevada carga de morbimortalidade e as múltiplas complicações decorrentes da doença, o que tem imposto importantes desafios aos sistemas de saúde. Objetivo: Analisar as iniquidades no cuidado e nos desfechos associados ao diabetes mellitus no Brasil, considerando a interseção entre gênero, raça e condição socioeconômica. Metodologia: Artigo 1: estudo transversal baseado em dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) (2019-2020), incluindo 6.967 adultos com diabetes autorreferido. A adequação do cuidado foi analisada segundo características sociodemográficas, sob abordagem interseccional. Utilizou-se regressão de Poisson com variância robusta para estimar razões de prevalência (RP) e IC95%. Artigo 2: estudo ecológico com dados coletados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS). As tendências nas taxas e proporções de hospitalização por diabetes mellitus segundo raça, gênero e distribuição geográfica foram analisadas pela Regressão Joinpoint. Artigo 3: estudo transversal com dados do Vigitel 2017-2019. Foi analisado o acesso aos medicamentos para tratamento do diabetes por pessoas idosas por meio de medidas absolutas e relativas de desigualdade. Resultados: No artigo 1, verificou-se que mulheres negras de baixa renda foram o perfil predominante de pessoas com diabetes (22,0%; IC 95%: 20,5-23,3). A maior prevalência de baixa adequação do cuidado foi observada em homens negros (79,6%; IC 95%: 75,7-83,1) e mulheres negras (79,1%; IC 95%: 76,2-81,8) de baixa renda. No modelo multivariado, a baixa adequação do cuidado foi associada a mulheres (RP=1,09) e a homens (RP=1,10) negros de baixa renda, ausência de complicações relacionadas ao diabetes (RP = 1,18) e ausência de histórico de hospitalização por diabetes (RP = 1,12). No artigo 2, observou-se que a taxa de hospitalização relacionada ao diabetes mellitus, no Brasil, apresentou tendência decrescente até 2020 (APC= -4.2%; IC95% -4.8; -3.6), seguida de estabilização. Houve tendência de aumento na proporção de internações entre mulheres negras e homens negros, com destaque para as regiões Norte e Nordeste. No artigo 3, as mulheres idosas negras (RPa= 0,98; IC 95% 0,97-0,99) tiveram menor acesso aos medicamentos quando comparadas às mulheres idosas brancas; idosos que autoavaliaram sua saúde como “ruim” (RPa=0,97; IC 95% 0,95-0,99) e aqueles que não possuem plano de saúde (RP=0,98; IC95% 0,97-0,99) tiveram menor acesso aos medicamentos. As medidas de iniquidades evidenciaram desigualdades com menor acesso ao medicamento para diabetes mellitus, entre mulheres idosas negras, com autoavaliação de saúde “ruim” comparado a “boa” [SII de -7,63 pp (IC95%: -14,27; -0,99), RII de 0,92 (IC95%: 0,85;0,99), RAP de -7,63 pp e FAP de -8,97%]. Considerações finais: Os achados combinados evidenciam que o cuidado ao diabetes mellitus no Brasil permanece marcado por um padrão de iniquidades estruturais, associado à interseção de gênero, raça, condição socioeconômica e geográfica. Esses resultados reforçam a necessidade de políticas e práticas assistenciais orientadas pela equidade.