AVALIAÇÃO DA COBERTURA VACINAL NO BRASIL DE 2013 A 2024: CORRELAÇÃO NA HESITAÇÃO VACINAL E O USO DAS MÍDIAS SOCIAIS
Vacinação. Cobertura Vacinal. Série temporal. Hesitação vacinal. Mídias sociais.
A prática de imunização é uma conquista da humanidade no controle e erradicação de doenças infectocontagiosas. O Brasil é um dos poucos países que disponibiliza gratuitamente à população acesso a vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde, por meio do Programa Nacional de Vacinação. A imunização é tida como um modificador no curso das doenças, pois através da imunização se evidencia acentuado decréscimo da morbidade e da mortalidade causada pelas doenças infecciosas evitáveis por vacinação, no entanto, a insuficiência na cobertura vacinal podem aumentar o fardo das doenças infecciosas endêmicas e o risco de ressurgimento de agentes patogênicos eliminados. As justificativas associadas à redução na cobertura vacinal são complexas e multifatoriais, incluindo fatores como: a hesitação em vacinar, que por vezes está associada a um processo nomeado pela Organização Mundial da Saúde como infodemia. O estudo objetiva avaliar a taxa de vacinação no Brasil na série histórica de 2013 a 2023 e a correlação das tendências sobre vacinação no uso das redes sociais. Trata-se de um estudo quantitativo, epidemiológico e qualitativo onde são integradas três abordagens metodológicas: a) revisão sistemática da literatura; b) estudos epidemiológicos observacionais; c) estudo de métodos mistos; d) estudo netnográfico a partir da Análise de Redes Sociais. Os resultados revelaram que os conteúdos nas mídias sociais sobre riscos das vacinas geram maior influência na percepção pública do que informações sobre segurança. Sobre os estudos epidemiológicos, observou-se um padrão de tendências estacionárias na maioria dos imunobiológicos analisados, com ampla variabilidade interanual. Para a vacinação da Hepatite B, identificou-se um período de declínio e estabilidade das taxas de vacinação entre 2013 e 2021 em todas as macrorregiões brasileiras, seguido por inflexão positiva a partir de 2022, especialmente nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul, no entanto, as análises por Prais–Winsten (PW) não identificaram tendência global significativa, apontando fragilidade na sustentabilidade do crescimento observado. Na vacina contra a dT e dTpa a maior parte dos segmentos temporais analisados não apresentou tendência estatisticamente significativa, A vacina Pneumo23 os resultados indicam crescimento da vacinação em grande parte do país, ainda que com intensidades distintas entre as regiões. A imunização contra a influenza nas regiões Norte e Sudeste apresentou quedas iniciais significativas, seguidas por recuperação recente (especialmente no Norte); as demais regiões mantiveram trajetórias majoritariamente estáveis, com variações pontuais não significativas; na análise estadual a maioria dos estados (21 unidades federativas) apresentou tendência estável. Para a vacina da tríplice viral, apesar de períodos de intensificação da vacinação da população adulta, esses avanços não se consolidaram ao longo do tempo, resultando em um cenário de instabilidade temporal e fragilidade estrutural. A integração dos achados quantitativos e qualitativos permite a inclusão de novas análises interpretativas, fortalecendo a discussão sobre a correlação entre a circulação de desinformação nas redes sociais e as variações nos índices de cobertura vacinal no Brasil. Assim, conclui-se que esse estudo pode possibilitar avanços para além da descrição dos fenômenos, contribuindo para a compreensão dos mecanismos sociais, comunicacionais e políticos que influenciam a hesitação vacinal.