A poluição plástica como nova via de acidificação oceânica e desequilíbrio do sistema carbonato da água do mar
CID; saturação da aragonita; calcificação; corais escleractíneos; degradação plástica.
A acidificação oceânica (AO) e a poluição plástica (PP) têm ameaçado os recifes de corais, essenciais à biodiversidade e aos serviços ecossistêmicos. A acidificação reduz a disponibilidade de íons carbonato na água do mar, essenciais para a formação dos esqueletos dos corais. A degradação do plástico pode intensificar esse processo ao liberar CO2 por meio da quebra do polímero e da decomposição microbiana de compostos orgânicos. Investigamos, pela primeira vez, os mecanismos biogeoquímicos envolvidos na AO desencadeada pela PP, bem como o papel do plástico como agente modificador do sistema carbonato da água do mar. Conduzimos experimentos laboratoriais em microcosmos utilizando partículas plásticas naturalmente envelhecidas, variando de 2 mm a 2,17 cm, mantidas em água do mar sob diferentes condições de luminosidade (irradiado e escuro). O experimento ocorreu em duas fases, cada uma com duração de 7 dias: (1) abiótica, para avaliar efeitos físico-químicos da degradação plástica; e (2) biótica, para analisar o papel da decomposição microbiana na intensificação da acidificação por plástico. As variações do pH, das concentrações de CO2 dissolvido e do estado de saturação da aragonita (Ωarag) foram monitoradas como proxies de acidificação. Durante a etapa abiótica, o plástico aumentou as concentrações de CO2 dissolvido, sendo esse aumento três vezes maior na condição irradiada. Consequentemente, o pH e o Ωarag apresentaram reduções significativas, atingindo valores considerados terminais para o desenvolvimento de recifes de corais (pH = 7.7 e Ωarag = 2.0). Na etapa biótica, não houveram variações significativas dos proxies de acidificação, atribuídas à baixa liberação de carbono orgânico dissolvido pelo plástico, reforçando a produção direta de CO2 como o principal mecanismo responsável pelas mudanças observadas. Estes resultados sugerem que a PP pode intensificar a AO, expondo os corais a maior estresse e alta mortalidade, levando a perda de cobertura recifal e de biodiversidade.