Evolução de traços funcionais em Myrtaceae Neotropical e suas correlações com fatores ambientais
Herbário; métodos comparativos filogenéticos; nicho climático; pré-adaptação.
Compreender a evolução das linhagens vegetais em relação às variações ambientais é fundamental para entender os processos que geram e estruturam a biodiversidade. Nesta dissertação investigamos a evolução de traços funcionais e suas correlações com fatores ambientais na região Neotropical, utilizando a família Myrtaceae como modelo. No primeiro capítulo, testamos a confiabilidade de dados de herbário para prever traços de plantas em seus ambientes naturais. Através de modelos de regressão e aprendizado de máquina, demonstramos que, embora a dessecação altere as dimensões de órgãos vegetativos e reprodutivos, essas mudanças são previsíveis, validando o uso de acervos biológicos como fontes de dados para a ecologia evolutiva. No segundo capítulo, investigamos se as mudanças de traços funcionais precedem (preadaptação) ou sucedem (adaptação) a ocupação de novos habitats. Os resultados revelam uma assimetria evolutiva: a colonização de ambientes abertos e sazonais é frequentemente facilitada por combinações de traços vegetativos pré-existentes, enquanto a ocupação de ambientes mésicos está associada à evolução de traços reprodutivos após a colonização. No terceiro capítulo, testamos a influência dos traços funcionais na amplitude do nicho climático. Utilizando um clado de ampla diversidade ecológica como estudo de caso (Psidium), identificamos que o número de sementes por fruto está positivamente correlacionado com a capacidade das espécies de ocuparem gradientes mais amplos de temperatura e precipitação. Por fim, no quarto capítulo examinamos como restrições internas e trade-offs de alocação limitam a evolução independente de flores, frutos e sementes. Os resultados revelam uma organização hierárquica onde o tamanho das flores exerce um efeito em cascata sobre as dimensões dos frutos e sementes, sugerindo que a evolução do fenótipo reprodutivo é governada por relações alométricas. Em síntese, os resultados indicam que a evolução dos traços funcionais em Myrtaceae Neotropical tanto responde aos fatores ambientais como determina os ambientes que as linhagens conseguem ocupar. Esta pesquisa reforça a necessidade de integrar traços reprodutivos e vegetativos com perspectivas macroevolutivas para compreender melhor a diversificação funcional no Neotrópico.