Influência de resíduos provenientes da pesca artesanal na assembleia de peixes da zona de arrebentação de praias oceânicas
Impacto ambiental; Assembleia de peixes; Zona de arrebentação; Resíduos de pescado; Ecologia aplicada
O crescimento populacional humano e a intensificação das atividades costeiras têm ampliado os impactos antrópicos sobre ecossistemas marinhos, especialmente em praias arenosas, ambientes altamente dinâmicos e biologicamente diversos. Nessas áreas, a pesca artesanal destaca-se como uma fonte recorrente de resíduos orgânicos, frequentemente descartados diretamente na praia, configurando uma forma de poluição, mas também um potencial subsídio alimentar para a fauna costeira. Apesar disso, ainda são escassos os estudos que avaliam os efeitos de resíduos do processamento do pescado sobre a ictiofauna da zona de arrebentação. O objetivo deste estudo foi avaliar como o descarte de resíduos de pescado provenientes da pesca artesanal, em conjunto com variáveis abióticas e a sazonalidade, influenciam a abundância, biomassa e composição da assembleia de peixes da zona de arrebentação. Hipotetizou-se que áreas com descarte apresentariam maiores abundâncias e biomassas, em consonância com a teoria do forrageamento ótimo e com os efeitos de subsídios alimentares previsíveis de origem antrópica. O estudo foi conduzido em Caiçara do Norte, litoral setentrional do Rio Grande do Norte, entre outubro de 2024 e setembro de 2025. A ictiofauna foi amostrada mensalmente por arrastos de praia em três áreas com diferentes níveis de impacto antrópico e hidrodinamismo, abrangendo períodos seco e chuvoso. Variáveis ambientais foram mensuradas in situ, e os dados analisados por meio de abordagens uni e multivariadas, incluindo PERMANOVA, NMDS, GAMLSS e RDA. Foram registrados 3.466 indivíduos, distribuídos em 30 espécies, com maior abundância e biomassa na estação seca e na área impactada pelo descarte de resíduos. A composição da assembleia variou espacial e temporalmente, sendo fortemente influenciada por salinidade, transparência, biomassa algal e presença de resíduos sólidos. Conclui-se que o descarte de resíduos do processamento do pescado altera a estrutura da assembleia de peixes da zona de arrebentação, reforçando a necessidade de manejo adequado, reaproveitamento desses resíduos e ações de sensibilização e fiscalização em comunidades pesqueiras artesanais.